Câncer / Notícias

Viviane Pereira

Publicado em 13/03/2019

Revisado em 14/03/2019

A importância de a mulher assumir o protagonismo de sua saúde – e da doença

Mulher com luvas de luta em posição de guarda olhando para a câmera.

Aproveitamos o mês em homenagem àquelas que levam os filhos e pais ao médico, para lembrar a importância de as mulheres assumirem o protagonismo da sua saúde – e da doença.

 

Protagonista: personagem principal de um filme, uma peça, uma obra literária, em torno do qual a ação se desenrola; participante ativo ou de destaque de um acontecimento. Diante da definição do dicionário para o termo protagonista, fica bem clara sua ação: ser o autor da própria história, para encaminhar os rumos que a vida terá a partir dos acontecimentos. Mas será que mesmo sabendo a importância, assumimos esse papel?

Aproveitamos o mês em homenagem àquelas que levam os filhos e pais ao médico, passam na farmácia na volta para casa para comprar medicamento e marcam a consulta para seus companheiros para lembrar a importância de as mulheres assumirem o protagonismo da sua saúde – e também, por que não, da doença?

“Tomar as rédeas da vida faz toda diferença”, diz Cristiane Gomes da Luz, que além de assumir as suas, gosta de incentivar as amigas e pessoas que a procuram nas redes sociais onde partilha dicas e palavras de incentivo, além da sua experiência com o câncer. “Pessoas que tomam as rédeas dos seus tratamentos não ficam só esperando as coisas acontecerem. Vão atrás, buscam informação. Amam-se acima de tudo. Quando eu me amo, faço tudo de melhor para mim. “Nunca me vitimizei, nem me revoltei ou procurei culpado”.

Com essa declaração Cristiane, conhecida pela sua página Luz da Cris, revela um pouco como mantém a força para encarar a doença, descoberta em abril de 2016 quando foi fazer laqueadura. Decidiu pelo procedimento porque já tinha dois filhos e acreditava que os sangramentos irregulares poderiam ser consequência do uso do DIU há três anos. “No procedimento a médica viu tumores nos ovários, mas não tinha ideia da extensão da doença”. A biópsia apontou que o câncer era no endométrio.

Dias depois sua barriga ficou bastante inchada, com intestino dilatado, e ela precisou passar por uma cirurgia de emergência de sete horas, em que foi retirado todo o aparelho reprodutor, baço, apêndice, vesícula, parte do peritônio e dos intestinos grosso e delgado. “O médico avisou que eu deveria sair usando uma bolsa de colostomia”.

No início, a decisão era não mostrar a bolsa para ninguém. “Vai ser o fim da minha vida”, pensou Cristiane, que gosta de se arrumar e estar bonita. Bastou a visita das amigas ao hospital para ela levantar a blusa e mostrar como era sua nova bolsa. “Achei melhor mostrar do que as pessoas ficarem imaginando o que seria aquilo na minha barriga”. Encarou tão bem o desafio que decidiu escrever um livro para compartilhar a experiência de seis meses usando a bolsa de estomia, A mulher de bolsa. O objetivo era abrir espaço para falar do tema sobre o qual encontrou pouca informação na internet.

Quando fez a cirurgia de reversão, tirou a bolsa e achou que sua vida voltaria ao normal, percebeu que não seria tão rapidamente. “Eu ia ao banheiro de 15 a 20 vezes por dia. Foram seis meses chorando de dor. Um dia estava chorando de dor deitada na cama e vi meus filhos rezando a Deus para tirar aquela dor de mim. Pensei: Isso tem que acabar. Não admito mais isso em minha vida”, lembra. “Quando a gente decide uma coisa na vida, ela acontece”. Ela passou a pesquisar alimentos que ajudariam o funcionamento intestinal e em um mês estava melhor.

Voltava à ação a mulher que assim que soube do câncer teve como primeira ideia: “Não vou deixar o câncer me deixar acabada. Não quero ter aparência de quem está doente”. Foi com essa motivação que antes de perder os cabelos na quimioterapia Cristiane os raspou, em companhia do marido e dos filhos, em um vídeo emocionante que partilhou nas suas redes sociais. Com as madeixas fez uma faixa, que usava sob os lenços durante o tratamento e ensina as internautas esse pequeno “truque”, uma forma de manter os próprios cabelos no visual.

“Também fiz um chá de lenço, ideia que eu li em um livro. Ganhei mais de 60 lenços e foi um grande impulso para mim, porque eu vi a importância que eu tinha para a pessoas. Minhas amigas foram de lenço também. Geralmente a pessoa morre e não sabe a importância que tem para as outras, que só vão aparecer no velório. O chá de lenço foi o meu velório”, brinca.

Com esse mesmo espírito otimista ela recebeu em maio de 2017 a notícia da recidiva, uma mancha no peritônio. “Fiquei nove meses ‘limpa’, sem a doença, mas ela voltou. É bastante grave. Quando eu vi que voltou fiquei desesperada, queria começar a quimioterapia, mas os médicos disseram para esperar e observar. A doença está estabilizada há quase dois anos sem medicamento”, comemora, contando o segredo de seu sucesso.

A estratégia para ficar bem também inclui partilhar com seus seguidores, outros pacientes, familiares e amigos cada conquista. “Fortalece muita gente e também recebo muita energia positiva”. Para Cristiane, a doença lhe proporcionou um grande crescimento. “Eu não tinha um olhar para o próximo. Hoje minha vida é ajudar as pessoas. Não tenho nem mais umbigo para ficar olhando para o meu”, conclui, com o mesmo espírito leve com que busca encarar a doença, a saúde e a vida. E adianta que já prepara seu segundo livro, para contar como está o intestino, a vida pós-bolsa e falar de força, pensamento, Deus e energia.

 

Como ser a protagonista

A médica oncologista Juliana Pimenta lembra que quando falamos em oncologia, para ser protagonista na saúde e na doença é preciso pensar em prevenção e diagnóstico precoce de câncer. “Vale a recomendação global. Temos muito claro que as recomendações feitas há bastante tempo para doenças cardiológicas são parecidas com as das doenças oncológicas: dieta saudável rica em frutas, legumes e verduras, pobre em embutidos, carne vermelha, açúcar e gordura”, avisa. “Já foi estudado em diversos tipos de tumores os benefícios”.

Juliana lembra que o câncer também está associado à questão do peso; por isso, prevenção inclui manter um peso adequado e evitar a obesidade, que faz mal para diversos tipos de tumores. “Atividade física também tem impacto com relação à prevenção oncológica em geral e também para melhoria das pacientes, principalmente em mulheres que tiveram câncer de mama, pois reduz a chance de o tumor voltar”. Com esse aviso, a médica lembra que esse trio chamado de mudança de estilo de vida ajuda não apenas na prevenção de tumores, mas também é importante para os pacientes oncológicos. “E não fumar, claro. Sabemos que o tabagismo está associado a diversos tipos de tumores, não apenas de pulmão, mas também cabeça, pescoço, bexiga”.

Os cuidados com a própria saúde envolvem avaliação médica periódica, seja como prevenção ou para quem está em tratamento. Juliana Pimenta relaciona os acompanhamentos fundamentais para a mulher acompanhar sua saúde e, se precisar encarar um câncer, garantir um diagnóstico precoce, que oferece maiores condições de cura e melhor sobrevida. “As mulheres estão cada vez mais conscientes da importância de fazer check-up. A mamografia, por exemplo, já foi bem abordada. Agora precisamos trabalhar com relação a outros tipos de prevenção, principalmente papanicolau e à vacinação dos filhos contra HPV. O objetivo é tornar o câncer de colo de útero raro – hoje é o terceiro entre as mulheres no Brasil. Nos Estados Unidos e na Europa é raro”, diz a médica.

 

Exames

  • Exame papanicolau a partir da vida sexual ativa ou aos 25 anos. Inicialmente fazer anualmente e depois de três exames negativos pode-se passar a realizar de três em três anos. “A vantagem é que muitas vezes não faz diagnóstico de câncer, mas pré-câncer. Consegue o diagnóstico em situação muito mais ideal, geralmente uma pequena cirurgia resolve a lesão pré-maligna e não precisa de quimioterapia”, avisa Juliana;
  • Exame ginecológico geral e mamografia a partir dos 40 – 50 anos;
  • Vacina contra HPV para meninas e meninos – ideal é tomar antes que tenha contato com o vírus;
  • Colonoscopia a partir dos 50 anos para prevenção do câncer de intestino;
  • Avaliação dermatológica para avaliar nevos (pintas e manchas), especialmente pessoas com pele mais clara;
  • Avaliação cardiológica.