Câncer / Notícias

Viviane Pereira

Publicado em 18/02/2019

Revisado em 18/02/2019

A lição de vida dos pacientes oncológicos

Mulher correndo na praia segurando guarda-chuva.

Pacientes e pesquisa do Inca confirmam mudanças que o câncer traz: valorizar as coisas simples, ter mais fé e cultivar hábitos saudáveis. Esses ensinamentos podem servir para todos.

“Ficar perto das pessoas que eu gosto, dar mais valor às coisas simples da vida. Não precisa esperar os grandes momentos”. Assim Paula Mara De Assis Palma resume as principais transformações pelas quais passou após ter um câncer. E faz questão de destacar: “Mas não tem a ver com o câncer. A gente tem que fazer o que gosta, porque isso torna a vida mais leve”. Para comentar seus pequenos e grandes prazeres, ela cita comer milho na praia, jogar tênis e trabalhar. “Tenho prazer de estar trabalhando”.

Paula credita ao trabalho, inclusive, um dos motivos do sucesso dos seus tratamentos – que não foram poucos, já que ela teve três recidivas, ficou careca três vezes, passou por nove cirurgias; chegou a ficar de alta seis anos antes de um retorno do tumor e agora está de alta há cinco anos. “Ter trabalhado o tempo todo me fez bem. Achava que ocupando a minha cabeça não sobrava tempo para pensar na doença. O tratamento era como uma reunião que eu precisava participar”.

A busca por redefinir o que realmente é fundamental e quais pessoas queremos ao nosso lado na vida está ligada ao processo de reformulação de valores e comportamentos que a doença traz. Essa foi uma das conclusões do estudo ‘Compreendendo a Sobrevivência ao Câncer na América Latina: os casos do Brasil’ apresentado pelo Instituto Nacional de Câncer (Inca) e o Ministério da Saúde no Dia Mundial do Câncer, criado pela União Internacional para Controle do Câncer (UICC), da qual o Instituto Vencer o Câncer é um dos membros associado.

Com o objetivo de detalhar experiências e necessidades do grupo de sobreviventes da doença, que cresce de forma significativa, os pesquisadores brasileiros entrevistaram 47 indivíduos diagnosticados há pelo menos 12 meses com câncer de próstata, mama, colo do útero e Leucemia Linfoblástica Aguda (LLA) e 12 familiares/cuidadores, em hospitais das redes pública e privada no Rio de Janeiro e em Fortaleza em 2014 e 2015.

Outra importante conclusão do trabalho: pacientes que sobreviveram ao câncer e familiares buscam hábitos mais saudáveis de vida. A maioria dos participantes reavaliou seu estilo de vida e muitos optaram por comportamentos mais saudáveis. Tanto pacientes quanto familiares citaram mudanças na alimentação, com a adoção de dietas mais saudáveis e relataram o início da prática de atividades físicas, além de passar a fazer exames médicos periódicos.

Mudando para melhor

Atualmente com 44 anos, Paula descobriu o câncer de ovário aos 28 anos, depois de nove meses sofrendo com muitas dores. Como não tem histórico na família, nem imaginava que poderia ter um tumor. “Os médicos me viravam do avesso com vários exames e diziam que não era nada; que era estresse, síndrome do intestino irritado”. A descoberta veio em um exame de toque do médico que fez o parto quando ela nasceu. “Depois fiz biópsia e descobri o câncer de ovário nível 3. Era raro naquela época”.

Apesar das adversidades com o retorno do câncer, garante que sempre teve convicção de que iria ficar bem, não morreria pelo tumor. “Isso mudou completamente o tratamento. O médico me disse: ‘Sua cura está na sua cabeça. Você é um milagre’”. Além do trabalho, também considera um importante estímulo saber que tantas pessoas oravam e esperavam sua melhora. “Eu me sentia na obrigação de ficar bem diante de tanta gente que vinha com energia positiva, me dizia que a mãe, a avó, todos estavam orando por mim”, recorda, comemorando todo o carinho recebido.

A outra motivação é querer deixar legados, ver o que pode impactar na vida das pessoas. “Eu acredito muito que a gente vai conquistar tudo aquilo que buscar. Precisamos ter o pensamento positivo e crer que tudo é possível. Ficar lamentando não vai mudar absolutamente nada. A situação está ali, definida. Precisa buscar alternativas para sair do círculo vicioso, que não agrega nada”. Junto com a força para enfrentar a doença, Paula sentiu a necessidade de viver bem o hoje. “Antes eu era mais planejada. Agora, o que eu quero fazer, vou fazer já”.

A urgência em viver o agora também se fez presente na vida de Érika Cristini Dias Quintino Carvalho, 32 anos, depois de descobrir que tinha câncer de mama. “Comecei a enxergar a vida de forma mais ampla. A gente não pode perder tempo. Deve viver um dia após o outro e curtir como se não existisse amanhã”.

Em março de 2017 ela descobriu um nódulo de 0,9 mm e sentia dor e pontadas na mama. Os médicos diziam que era gordura ou consequência de comer chocolate e tomar café. Como trabalha na área da saúde, é fisioterapeuta dermatofuncional, e uma tia faleceu de câncer, achou que havia algo errado e decidiu observar. Continuou sentido muita dor, voltou a buscar ajuda e em agosto teve seu diagnóstico. “Pelas imagens, a médica acreditava que era benigno, mas por conta do histórico da família resolveu fazer a punção, colher material e mandar para análise”, lembra. “Quando eu soube, avisei que se precisassem, arrancassem as duas mamas. Eu não queria metástase. Minha tia teve câncer de mama e metástase”.

Érika recorda que naquele momento, a fé e os cuidados com a saúde foram essenciais. Lembra que durante a preparação foi em uma missa de cura e libertação e começou uma alimentação saudável e orgânica – seu objetivo era não alimentar o tumor. “Na missa, o padre falou: ‘tem alguém aqui com um tumor pequenininho. Só que Deus está curando essa pessoa. Essa pessoa que foi curada por Deus agora, levanta’. Só eu levantei”, emociona-se.

A previsão era tirar toda a mama, mas o tumor, que tinha passado de 0,9 mm para 2,0 na época do diagnóstico, havia diminuído e estava em 1,7 quando foi para a cirurgia. Por isso, fez apenas o quadrante e reconstruiu na mesma hora. Terminou a quimioterapia em maio e em julho casou-se com o rapaz que era seu namorado havia cinco meses quando descobriu o tumor.

Assim como Paula, Erika acredita que quem manda no corpo é a cabeça. “Se estiver boa, a gente consegue enfrentar qualquer coisa. Minha cabeça sempre foi muito boa e sempre tive fé em Deus. Consegui seguir minha vida e fazer tudo que tinha que fazer”. Para ela, a doença aconteceu com um propósito, que é passar a ajudar as pessoas. “Vejo pessoas tristes no hospital, magoadas. Eu me aproximo e converso. Digo que o câncer hoje não mata e é possível vencer”. Sua vontade é ser voluntária e repassar essa força a outras pacientes.