Dia a Dia do Paciente / Atividade Física

Viviane Pereira

Publicado em 03/04/2019

Revisado em 04/04/2019

A Organização Mundial da Saúde tem metas ambiciosas para a sua saúde. E você?

Mulher de perfil ao ar livre com braçosabertos e respirando ar puro.

Cinco fatores para as doenças crônicas não transmissíveis, responsáveis por mais de 70% das mortes no mundo, dependem da ação de cada um e podem reduzir o risco de câncer.

 

Um bom estado de saúde inclui, além da ausência de doenças, o bem-estar físico, mental e social. Para conscientizar a população sobre a importância da boa saúde para a qualidade de vida, comemora-se em 7 de abril o Dia Mundial da Saúde, escolhido por ser a data da fundação da Organização Mundial da Saúde (OMS), que indica diretrizes sobre o tema. O lema deste ano é Saúde Universal para todos e todas, em todos os lugares.

Para 2019, a entidade tem metas ambiciosas, como a ampliação do acesso e da cobertura de saúde para atender a 1 bilhão a mais de pessoas em relação aos números atuais, a garantia de que 1 bilhão de pessoas estejam protegidas de emergências de saúde e melhorar o bem-estar de 1 bilhão de moradores do planeta Terra. Há também metas direcionadas às doenças crônicas não transmissíveis (DCNTs), como o câncer e as doenças cardiovasculares. A preocupação se justifica: as DCNTs são responsáveis por mais de 70% das mortes no mundo – 41 milhões de falecimentos.

Para mudar esse cenário, a OMS pretende atacar os cinco fatores de risco que impulsionam a ocorrência dessas doenças: tabaco, inatividade física, uso nocivo do álcool, dietas pouco saudáveis e poluição do ar. “Todos estes fatores são possíveis da intervenção humana e cabe a nós agirmos para reduzir o risco de câncer”, destaca o oncologista Antonio Buzaid, um dos fundadores do Instituto Vencer o Câncer (IVOC).

Membro do Comitê Científico do IVOC, o oncologista William William acredita que o tabaco seja talvez o fator de risco evitável mais importante para o câncer. “De todos, é o que causa maior número de doenças e possível de evitar: é parar de fumar”. Quando fala em parar de fumar, o médico refere-se a qualquer uso de tabaco: seja cigarro, cachimbo, narguilé etc. “A gente pensa muito em câncer de pulmão, mas o tabaco aumenta o risco de uma série de outros tumores, como cabeça e pescoço, além do câncer de bexiga. A pessoa inala os carcinógenos filtrados pelo organismo, que vão para a urina e para a bexiga”.

Aos que já fumaram por muito tempo e acham que não adianta mais parar, o oncologista avisa que vale a pena, já que o risco vai diminuindo ao longo do tempo que a pessoa fica sem fumar. William esclarece que após muitos anos sem fumo, o ex-fumante pode chegar quase ao nível de risco da população não fumante. Também é importante cessar o tabagismo para quem já teve um tumor ou está em tratamento, pois melhora a chance de cura e resultados positivos, além de evitar recidiva. “Pacientes que entram em remissão, estão potencialmente curados e continuam fumando têm risco maior do que aqueles que pararam de fumar”.

Uma das dificuldades para cessar o tabagismo é o estigma. Por isso, o médico explica que é importante saber que é uma doença, um vício. “As pessoas dizem que você foi atrás disso, fez para você mesmo. Mas é dependência química e muitos precisam de ajuda como psicoterapia, adesivos, gomas de mascar. Existem medicações estratégicas que reduzem o impulso e aumentam as chances de parar de fumar. Importante é procurar ajuda”.

A poluição também está associada a alguns tipos de câncer, como o de pulmão: 80% são devido ao tabaco, 10% poluição e 10% fatores diversos. William afirma que influencia tanto a poluição externa quanto a interna, por exemplo, de pessoas que convivem com tabagistas – o fumante passivo. “É menos do que o tabagismo ativo, mas ainda um fator de risco”. Já quanto à poluição externa, especialmente para quem vive nas grandes cidades, ele cita que não há muito como prevenir ou controlar, porque depende de medidas públicas. “Sabemos que têm partículas, material particulado causado por diversos fatores, como o uso do combustível, e pode aumentar o risco da pessoa desenvolver câncer de pulmão e outros tumores”.

Junto com o tabaco há outro vilão que está entre as prioridades da OMS, que é o uso nocivo do álcool. Um dos questionamentos dos profissionais de saúde e cientistas é a determinação sobre a partir de que ponto o uso seria nocivo. Fábio Marinho do Rêgo Barros, hepatologista da Beneficência Portuguesa de Pernambuco e membro das sociedades Brasileira, Americana e Europeia de Hepatologia, alerta para estudo apresentado na Reunião Anual da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO) em 2018: “nenhum nível de álcool é seguro para não ter desenvolvimento de câncer”.

“Houve aumento de consumo de álcool no mundo todo, principalmente entre jovens e de forma binge drinking – que é o consumo de grande quantidade de álcool em pouco tempo. Esse hábito está se tornando frequente e fará o mesmo dano ao longo do tempo que a pessoa que bebe todo dia ou frequentemente”, informa. “As duas formas de ingerir álcool, no consumo regular ou nesse padrão binge drinking, aumentam os números de câncer de fígado, pâncreas, mama e bexiga. São os mais impactados, lembrando que o tumor de pâncreas tem baixa sobrevida dos pacientes”.

O consumo de álcool, além de aumentar o risco de desenvolver tumores, também influencia na possibilidade de ter uma recidiva, retorno do câncer. Barros destaca que pacientes de câncer de mama que consomem álcool após a terapia curativa têm possibilidade de retorno tumoral maior do que os que não consomem. “O mesmo com câncer de fígado. O consumo de álcool normalmente está associado à doença cirrótica. A maioria tem cirrose hepática causada pelo álcool e um dos tratamentos é o transplante. Mas a pessoa não é contemplada se estiver ingerindo álcool regularmente; tem que estar em programa de abstinência. O álcool impede que o paciente seja efetivamente tratado – é o princípio do utilitarismo, privilegiar o tratamento a alguém que não está agredindo o órgão”.

Segundo o hepatologista, para o fígado, o que se pode considerar uma ingestão de álcool relativamente segura – e ele destaca a palavra relativamente – é uma dose de destilado por dia ou duas cervejas long neck por dia. “Lembrando que não é recomendada a ingestão de qualquer tipo ou quantidade de álcool, em contraponto à indicação de alguns cardiologistas sobre o consumo moderado de álcool melhorar as condições cardiovasculares. Esses novos resultados demonstraram que não vale o risco de ter câncer”.

Por outro lado, o médico sugere o consumo regular de café para reduzir a mortalidade oncológica: “4 xícaras ao dia seria o ideal”.

 

Comer bem e mover-se

“80% das diretrizes de prevenção, tanto da Sociedade Americana quanto da Brasileira de Oncologia, são baseadas na parte nutricional”. O alerta é feito pela médica nutróloga integrante do Comitê Científico do IVOC, Andrea Pereira, que enumera alguns dos principais vilões: o consumo excessivo tanto de açúcar quanto de sal aumenta o risco de câncer. “Nossa média de consumo de sal é o dobro da preconizada. O brasileiro gosta de comida salgada. Do doce não temos uma média, mas sabemos que as pessoas usam açúcar em tudo – até no suco natural”. Citando o consumo de açúcar, ela lembra que o diabetes não controlado também aumenta o risco de tumores.

Quanto à carne vermelha, Andrea esclarece que não é o consumo que aumenta o risco, mas a quantidade consumida: o ideal é não passar de 500 a 700 gramas por semana. “Se pensar em uma alimentação equilibrada, com carne branca e ovos junto com a carne vermelha nas proteínas animais, não ultrapassa esse consumo”. E recorda que carne de carneiro, de porco, e derivados como linguiça e presunto também são carne vermelha.

A nutróloga ressalta a importância da ingestão de fibras: verduras e legumes têm muitas fibras e o baixo consumo desses alimentos prejudica a saúde. Outro obstáculo é o fato de consumir poucos alimentos integrais. “90% não consomem porque dizem que não gostam. Alguns afirmam comer verduras e legumes, mas apenas batata, inhame, mandioquinha. São legumes, mas ricos em carboidratos; e acabam não consumindo outras variedades”.

A dica de Andrea é olhar para o colorido da comida, que deve ter pelo menos três cores: se tem uma cor apenas, não conta com todas as vitaminas necessárias. Para a variedade, a salada é importante aliada. “É uma questão de hábito. Se vem desde a infância, em casa, é mais fácil. Depois, fica mais difícil. Os pais passam uma mensagem importante – se não comem, como vão dizer que o filho deve comer?”.

Para a médica, um país que produz verduras, legumes e frutas o ano inteiro deveria ter uma alimentação melhor. “O consumo desses alimentos está diminuindo; estamos ficando com a dieta globalizada, mais baseada em gorduras e carboidratos e menos frutas e legumes. Consumimos mais alimentos industrializados, mais sal, corante e conservantes”.

Entre outros fatores, a má alimentação tem levado ainda ao aumento da obesidade no país – o que também aumenta o risco de câncer. Registros afirmam que o Brasil é o sexto no mundo em obesidade e a tendência é crescer mais. A obesidade é uma doença crônica, mas um dos fatores do tratamento é uma dieta equilibrada”.

A combinação perfeita para garantir uma boa saúde, evitar a obesidade e prevenir não apenas câncer, mas várias doenças crônicas, é unir à boa alimentação a prática de atividade física. Por isso, um dos objetivos da OMS para 2019 é trabalhar com os governos para atingir a meta global de redução de 15% da inatividade física até 2030, com políticas que incentivam as pessoas a estar mais ativas todos os dias.

A educadora física Luciana Assmann, especialista em pacientes oncológicos, comenta que atualmente se fala muito de atividade física como prevenção e também tratamento, não só para câncer. E avisa: mesmo que a pessoa esteja sedentária no momento do diagnóstico, faz toda diferença começar a atividade para se tratar.

“Lógico que o melhor é usar a atividade física na prevenção. Metade das pessoas no Brasil não se exercita regularmente”, diz. “O sedentarismo contribuiu para 47 mil mulheres em todo o mundo terem câncer de mama. Os homens inativos e obesos têm mais risco de desenvolver câncer urológico, porque a atividade física promove o bom funcionamento dos rins. Um homem que faça o mínimo de atividade física previne câncer de próstata e rim”.

Luciana traz ainda outro dado alarmante, consequência, em parte, da má alimentação e sedentarismo: 20 milhões de crianças com menos de 5 anos já são obesas no mundo. “A falta de atividade física da geração videogame, celular e TV cria um indivíduo que já cresce sedentário, candidato a ter câncer, diabetes e doenças coronárias. A culpa não é do celular ou do game, mas do responsável pela criança, que acha mais prático do que levar o filho para correr e andar de bicicleta”. A consequência, avisa, é predisposição para ser um adolescente obeso e entrar assim na vida adulta.

“A atividade física regular deve ter ao menos 150 minutos de prática semanal, para ativar os mecanismos biológicos que são capazes de inibir a formação do tumor. Também reduz peso e aumenta a massa magra, diminuindo a disponibilidade de gordura”, explica. “O exercício regular melhora ainda o hábito intestinal, reduzindo a exposição do tecido intestinal a substâncias carcinogênicas”. A educadora física afirma que o ideal é trabalhar tanto o muscular quanto cardiovascular e respiratório, unindo aeróbico e força, como por exemplo musculação e caminhada, corrida e ginástica localizada.

Para os pacientes oncológicos, a indicação de atividade física vai variar de acordo com o tipo de tratamento, histórico, status da doença, se era sedentário antes do diagnóstico e até do medicamento utilizado, considerando os efeitos colaterais. “Felizmente hoje é comum o médico indicar exercício como parte do tratamento do paciente oncológico. A prática do paciente tem que ser encarada com tanta seriedade como o tratamento medicamentoso, desde a escolha da modalidade, o intervalo das sessões e a duração dos treinos”.

A ideia, conforme Luciana, é pensar cada fase considerando a continuidade da prática, para que passe a fazer parte da rotina mesmo após o tratamento, como prevenção de recidiva e qualidade de vida. “De forma geral, a atividade física age preventivamente para vários tipos de câncer, com muitos estudos para câncer de mama e cólon”.

Além da atuação individual, Luciana indica que cada um pode fazer sua parte para ajudar a atingir a meta da OMS de redução de 15% da inatividade física até 2030, agindo de forma global: “Se você já faz atividade física e cumpre sua parte, pode ajudar influenciando pessoas conhecidas – influenciar os filhos e os pais, já que os idosos também estão pré-dispostos ao câncer, influenciar amigos, colegas de trabalho, pessoas que estão por perto. Aí, sim, conseguiremos mudar esses números”.

A sugestão é formar uma espécie de corrente do bem, que pode ser usada para todos esses fatores de risco: poluição, tabaco, álcool, sedentarismo e má alimentação. Estimular as pessoas do nosso convívio a ter mais qualidade de vida. Fica o chamado: se a OMS tem metas ambiciosas para melhorar a nossa saúde, por que não fazemos o mesmo?