Câncer / Notícias

Viviane Pereira

Publicado em 22/11/2018

Revisado em 22/11/2018

As diferentes faces dos tumores femininos e masculinos

Cientista em laboratório trabalhando com tubos de ensaio.

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O câncer afeta homens e mulheres de formas diferentes, seja em incidência de acordo com cada tipo ou pelos diferenciados efeitos que os fatores de risco, como obesidade, causam nos organismos feminino e masculino, além dos hábitos de vida e de cuidados com a própria saúde. O relatório anual da Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (IARC), da Organização Mundial da Saúde, aponta que um em cada cinco homens e uma a cada seis mulheres terão câncer em algum momento de suas vidas. Também indica que um em cada oito homens e uma em cada 11 mulheres vão morrer por causa da doença.

O Instituto Nacional do Câncer (Inca) estima para o biênio 2018-2019 600 mil novos casos de câncer a cada ano no Brasil. O câncer de pele não melanoma, que tem maior incidência para homens e mulheres, terá 170 mil novos casos. Depois, em homens a maior ocorrência será de câncer de próstata (31,7%), pulmão (8,7%), intestino (8,1%), estômago (6,3%) e cavidade oral (5,2%). Nas mulheres, os cânceres de mama (29,5%), intestino (9,4%), colo do útero (8,1%), pulmão (6,2%) e tireoide (4,0%).

Na segmentação de cada tipo de tumor também há diferenças entre os gêneros. No Brasil, os dados do Inca mostram que o câncer de estômago tem incidência maior nos homens do que nas mulheres, assim como o de pele não melanoma e pulmão. Já o câncer de intestino (colorretal) é mais frequente nas mulheres (veja tabela).

“Em termos de fator de risco, os tumores masculinos e femininos são muito parecidos”, avisa Ana Paula Garcia Cardoso, oncologista clínica do hospital Albert Einstein e colaboradora do Comitê Científico do Instituto Vencer o Câncer. A médica destaca os principais fatores de risco que tanto homens quanto mulheres devem se preocupar em Oncologia: primeiro o cigarro, de maior gravidade e que mais causa impacto em saúde pública.

Depois Ana Paula cita o sedentarismo e a obesidade. “Tanto em homens quanto em mulheres, principalmente após a idade adulta, o ganho de peso, bastante comum, aumenta o risco para todos os cânceres, principalmente os relacionados à parte hormonal. Há a conversão hormonal periférica, conversão de androgênio principalmente na gordura. A obesidade muda a taxa hormonal”. O quesito hormonal é justamente o responsável pelas diferenças entre os gêneros. “O sedentarismo leva à obesidade e maior risco de câncer. Na mulher vai ter mais câncer de mama, ovário e endométrio; no homem, mais câncer de próstata”, avisa. “Essa ideia é importante, porque antes não se relacionava o câncer de próstata aos hábitos de vida. O homem brasileiro está quase tão obeso quanto o americano e sabemos que há uma importância maior na relação do tumor com os hábitos do que se costumava dar”.

A oncologista lembra que as mudanças de hábitos, não apenas a falta de atividade física, mas também consumo de alimentação de pior qualidade – com alimentos industrializados, menos frutas e legumes e mais carne – estão levando a aumento da prevalência de câncer de intestino em homens e mulheres.

Outro aspecto que tem impactado o perfil de alguns tipos de câncer está ligado ao tabagismo. “Mais homens que mulheres têm câncer de pulmão, que é 90% relacionado ao cigarro. Mas a quantidade de mulheres acometidas por esse tumor tem crescido muito, a ponto de em alguns países da Europa o câncer de pulmão estar quase alcançando os números de câncer de mama”. Conforme Ana Paula, as mulheres estão fumando muito mais, além de serem mais sensíveis ao cigarro que os homens e ao comprometimento que ele provoca no organismo.

Elas se cuidam mais

Os índices de mortalidade por câncer, menor em mulheres do que nos homens, se explicam especialmente pelo fato de as mulheres cuidarem mais da saúde. “A mulher está mais orientada aos programas de prevenção. O homem é mais distante do sistema de saúde, faz menos exames de prevenção”, diz a médica. “Apenas 60% dos brasileiros já procuraram um urologista na idade adulta, entre 50 e 60 anos”.

Essa preocupação, em fazer avaliações e exames periodicamente, garante que a mulher consiga diagnósticos mais precoce. Ana Paula explica que outro fator são os sinais: “A mulher consegue detectar mais precocemente o câncer pelo sinal que o corpo mostra”. De mama, com os exames; de endométrio, apesar de ser mais silencioso, pode aparecer através do sangramento vaginal em mulher já menopausada. “O câncer de ovário é mais difícil, por ser bastante silencioso. Só é detectado precocemente quando e mulher faz exames com maior frequência. Mas não tem exame preventivo de ovário. O câncer de próstata também é silencioso e só tem sintoma quando a doença está avançada. Pode ser detectado de forma mais precoce pelo toque retal e o PSA”.

Diante desse cenário, a oncologista faz um alerta: “Os homens estão em maior risco e a campanha Novembro Azul não serve apenas para lembrar o homem do câncer de próstata, mas de todos os cuidados necessários para a saúde masculina”.

 Homens se abrem menos

Os tumores nos órgãos que se relacionam à sexualidade são os que mais exigem atenção nos pacientes oncológicos – e também abordagem diferenciada de acordo com o gênero, conforme explica a enfermeira oncológica Gislene Padilha, colaboradora do Instituto Vencer o Câncer. Para os homens, o câncer de próstata; para mulheres, mama, ovário e útero.

“Normalmente, no começo os pacientes querem a parte prática, sobre acesso e como fazer o tratamento, pois terão que adaptar suas vidas, trabalho e família a uma nova rotina. O enfermeiro, junto com a equipe médica, é o guia do paciente nessa jornada do tratamento de câncer”, relata Gislene. Os cuidados envolvem não só o aspecto físico, mas também psicológico. “O diagnóstico pode gerar ansiedade, depressão ou outras reações. Há casos em que ocorre inversão de papeis na família: quem cuidava, muitas vezes, acaba sendo cuidado”.

Gislene conta que há bastante diferenças entre homens e mulheres para descobrir os efeitos colaterais: as mulheres vão falando ao longo do tratamento, enquanto a enfermeira educa e orienta nos cuidados necessários. “Os homens não costumam falar quando há problemas relacionados à sexualidade. Nós passamos um questionário para saber de efeitos e quando não respondem da forma que a pergunta normalmente é respondida, temos outras ferramentas validadas para descobrir o que está acontecendo e procurar ajudar”. Para as mulheres, os tumores femininos trazem dificuldades em relação à aparência e à vida sexual. “Acaba afetando a feminilidade”, conclui Gislene.