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Publicado em 08/11/2018

Revisado em 08/11/2018

Autoestima e qualidade de vida do paciente: o câncer masculino muito além da cura

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“Ter uma excelente chance de cura, de sobrevida, não é suficiente para uma vida feliz”. O alerta, feito pelo urologista e especialista em andrologia Jorge Hallak, chama atenção para um aspecto nem sempre discutido quando se trata de tumores masculinos. Entretanto, é uma grande preocupação de homens que recebem diagnóstico de qualquer tipo de câncer. “Estudos mostram que entre os pacientes que sobrevivem ao tratamento oncológico, 85% têm como primeira prioridade aspectos sexuais e 80% aspectos reprodutivos”, avisa. “É uma preocupação que deve ser mais abordada por pacientes e médicos”.

A boa notícia é que os avanços da medicina permitem soluções para ambos aspectos: reprodutivo e sexual. “Procure um médico e seja feliz”, sugere Hallak, referindo-se às alternativas para solucionar consequências tanto da doença quanto dos efeitos colaterais dos tratamentos. A preocupação não apenas com a sobrevida, mas também com a qualidade de vida do paciente é uma das diretrizes do Instituto Vencer o Câncer, que durante todo o Novembro Azul realiza atividades e ações para levar informação ao público masculino.

Para a questão reprodutiva, a principal indicação é o congelamento ou criopreservação dos espermatozoides antes de iniciar o tratamento oncológico. “Há alguns tumores, como o de testículo, em que é mais fácil entender os efeitos imediatos, já que afeta diretamente o órgão que produz espermatozoides e o hormônio testosterona”, diz o médico. “Tumores que em teoria estão longe do sistema reprodutivo, como esôfago ou orofaringe, podem afetar a função reprodutiva, porque produzem substâncias que circulam no corpo e diminuem a capacidade de os testículos interagirem com os hormônios e produzirem espermatozoides”.

A quimioterapia ou a radioterapia podem, de forma temporária ou definitivamente, impedir a produção de espermatozoides ou fazer com que eles não tenham qualidade suficiente para gestar um embrião. Por isso, nos primeiros dois anos após o tratamento, mesmo que não haja azooespermia (ausência de espermatozoides ejaculado), o paciente que pretende tentar reprodução de forma natural deve fazer exames para avaliar a capacidade reprodutiva do espermatozoide.

Quanto aos aspectos sexuais e hormonais, Hallak esclarece que em teoria são menos prejudicados, pois a parte do testículo que produz hormônio é tecnicamente mais resistente aos efeitos dos tratamentos. “Mas isso não quer dizer que não possa ocasionar uma queda nos hormônios que regulam o ciclo sexual do homem”. Segundo o urologista, o problema sexual pode surgir pela presença do tumor no organismo e pelo aspecto psicológico: “A pessoa tem um baque na hora que recebe a notícia; é natural e pode prejudicar a capacidade de produzir testosterona”.

Além da idade – os jovens tendem a resistir mais –, hábitos de vida interferem nos efeitos na questão sexual. “O homem é um resumo da parte genética, nutricional e de como levou a vida. Um paciente de 60 anos com vida saudável, se tiver um tumor, terá mais condição de resistir em termos hormonais do que um com a mesma idade que a vida inteira foi tabagista, sedentário, obeso e com maus hábitos alimentares”.

Ele avisa que há recursos da medicina moderna que possibilitam tanto a ereção quanto a libido. “É importante falar também do desejo sexual; a qualidade de vida não envolve somente a ereção. Ter uma ereção que é desconectada do desejo sexual fica incompleto”. O melhor, avisa Hallak, é ter uma vida saudável, que vai ajudar a se recuperar, e falar logo com o médico, conversar com a parceira. “No Brasil, o homem demora cerca de três anos e meio para conversar com o médico sobre aspectos sexuais. Esse tabu precisa ser quebrado para evitar anos de frustração e decepção de não ter ereção e uma vida sexual satisfatória”.

Viver melhor com os efeitos do tratamento

A incontinência urinária e a radiodermatite são alguns dos efeitos colaterais dos tratamentos de cânceres. Entretanto, há cuidados antes e depois para diminuir as consequências e melhorar a qualidade de vida. “É preciso começar um trabalho ainda no pré-operatório, com exercícios de contração da musculatura do períneo, para fortalecimento do assoalho pélvico, para que a disfunção urinária seja minimizada”, explica Fernanda Mateus Queiroz Schmidt, enfermeira estomaterapeuta membro da Sobest – Associação Brasileira de Estomaterapia.

Nos casos em que a incontinência é mais severa ou persistente, o paciente pode ser encaminhado para uma avaliação minuciosa e tratamento dirigido. “Orientamos a fazer programa de exercícios, temos instrumento de biofeedback que avalia se as contrações estão sendo feitas de maneira correta, para ensinar ao paciente a melhor forma de praticar. Há ainda eletroestimulação para fortalecer a musculatura”. Fernanda afirma que além de ajudar na reabilitação da incontinência urinária, essas ações também auxiliam na disfunção sexual.

A radiodermatite, reação da pele à radioterapia, prejudica a retomada da qualidade de vida. “São como queimaduras feitas pela radiação. Além de afetar a autoestima, o paciente não consegue vestir todas as roupas adequadamente. Dependendo do grau, sente dor e ardência intensa. Para amenizar, recomendamos hidratar a pele – sem usar produtos irritantes com álcool ou que contenham metais – e beber bastante líquido – se não tiver restrição hídrica -, além de evitar tomar sol no local”. A sugestão é pedir indicação de um creme ao médico e usar sabonete com ph neutro ou acidificado.

Saiba mais sobre os tumores masculinos no site https://www.vencerocancer.org.br/