Câncer / Notícias

Viviane Pereira

Publicado em 05/08/2019

Revisado em 05/08/2019

Cresce incidência e mortalidade por câncer em pessoas com menos de 50 anos no Brasil

Estudo aponta que aumento está relacionado a fatores de risco como tabagismo e obesidade presentes nos hábitos de vida.

Homem jovem deitado em sofá comendo hambúrguer e assistindo a televisão.

 

A ideia de que o câncer é uma doença de quem envelhece vem sendo questionada por estudos ao redor do mundo. Pesquisas realizadas recentemente nos Estados Unidos demonstrando aumento da incidência de câncer em pessoas com menos de 50 anos fez surgir a dúvida sobre o panorama brasileiro em relação a esse aspecto. Para obter essa resposta, especialistas do Observatório de Oncologia, do Movimento Todos Juntos Contra o Câncer (TJCC), analisaram dados do Datasus e do Instituto Nacional do Câncer (Inca) e realizaram o trabalho “Câncer antes dos 50: como os dados podem ajudar nas políticas de prevenção”. Concluíram que no Brasil também houve aumento de incidência e mortalidade na população mais jovem por alguns tipos de câncer que eram relacionados ao avanço da idade.

Estudos americanos identificaram a ligação entre obesidade e o aumento dos tumores nos jovens. No cenário brasileiro, a situação não é muito diferente: o trabalho apurou que o crescimento dos cânceres na população até 50 anos está relacionado a fatores de risco presentes nos hábitos do estilo de vida dos brasileiros. A informação é importante para a definição de políticas públicas que visem diminuir os índices da doença. “É fundamental fomentarmos o debate sobre a importância dos dados. Confiamos que com isto haverá melhor entendimento do cenário e planejamento de ações de enfrentamento ao câncer”, afirma Merula Setagall, presidente da Associação Brasileira de Linfoma e Leucemia – Abrale e líder do Movimento Todos Juntos Contra o Câncer.

“A obesidade abdominal e o tabagismo são fatores muitos importantes de risco para vários tipos de câncer. A obesidade hoje, além do tabaco, é o segundo maior fator de risco para câncer, responsável por 30% de todos os tumores”, avisa o oncologista Fernando Maluf, um dos fundadores do Instituto Vencer o Câncer (IVOC). “Esses números reforçam a necessidade de se investir em políticas públicas, evitando doenças graves e profundamente evitáveis”.

O estudo analisou informações das 19 neoplasias consideradas pelo Inca como as mais frequentes no Brasil. “Houve aumento das taxas brutas de mortalidade nos estados brasileiros por todas as neoplasias, na população com menos de 50 anos, no período analisado. Em 10 das 19 neoplasias analisadas houve aumento das taxas brutas de incidência ou mortalidade ou ambas, na população na faixa etária entre 20 e 49 anos. Dentre os cânceres que apresentaram aumento das taxas brutas de mortalidade, as neoplasias femininas merecem maior atenção, visto que a mortalidade por estes tipos de tumores aumentou entre as mulheres, apesar de não haver tendência de aumento da incidência”, conclui o trabalho.

Entre 1997 e 2016, na população com idade entre 20 e 49 anos, houve o aumento das taxas brutas de incidência dos cânceres de cólon e reto, próstata e glândula tireoide. Nessa faixa etária cresceu a mortalidade por todas as neoplasias e pelos cânceres de cavidade oral, mama, colo e corpo do útero, sistema nervoso central e linfoma não-Hodgkin. Todos os tumores analisados que apresentaram aumento da incidência ou da mortalidade na população com menos de 50 anos estão fortemente associados com um ou mais fatores de risco relacionados ao estilo de vida.

“Precisamos olhar com atenção e cautela os dados, para que as pessoas não fiquem alarmadas; não se trata de epidemia. O que acontece é um fenômeno observado também em outros países, provavelmente fruto de maior exposição a fatores de risco pessoais e ambientais, como alimentação inadequada ou sujeita a contaminantes, obesidade, falta de atividade física e sedentarismo”, avalia o médico e professor Luiz Antonio Santini, que foi diretor do Instituto Nacional do Câncer (Inca) de 2005 a 2015 e atualmente é consultor internacional de políticas de câncer, participa de grupos internacionais de pesquisa e também na Fundação Oswaldo Cruz. “O aumento da mortalidade traz uma questão de outro tipo, ligada ao acesso aos serviços de saúde. Quanto mais cedo diagnostica o câncer ou cura, a sobrevida é maior. Por isso, esse aumento é indicação preocupante da necessidade de melhoria de acesso”.

 

Fatores de risco

Entre os principais fatores de risco para aumento de incidência e mortalidade por cânceres em pessoas até 50 anos, o trabalho destaca o tabagismo, o consumo de álcool e a obesidade. A fumaça do tabaco libera várias substâncias químicas, algumas classificadas pela Agência Internacional de Pesquisa do Câncer (International Agency for Research on Cancer- IARC), da Organização Mundial da Saúde, como substâncias carcinogênicas para humanos. O tabagismo é um dos principais fatores de risco para os cânceres de pulmão, cavidade oral e laringe; também está associado à incidência dos cânceres de cólon e reto, mama, próstata e tireoide. Estima-se que o tabagismo seja responsável por 15,5 da incidência de tumores e 21,4% das mortes por câncer no Brasil.

A IARC também considera o álcool como substância carcinogênica para humanos. Está associado diretamente à incidência e mortalidade dos cânceres do trato gastrointestinal, como os cânceres de cavidade oral, esôfago, estômago e cólon e reto, mas também tumores de mama e próstata. A obesidade aparece como fator de risco para todos os tumores que tiveram aumento de incidência e mortalidade, com exceção do câncer de cavidade oral. Ela também é considerada fator de risco para a sobrevida do câncer.

 

Como mudar o cenário

“Confiamos que, com o conhecimento destes dados, haverá um melhor planejamento de ações de enfrentamento ao câncer aqui no país”, ressalta Merula. Os dados gerados pelo setor de saúde impactam as decisões do poder público em prevenção, diagnóstico e tratamento, oferecendo informações para tomadas de decisões dos gestores e governantes.

As conclusões do estudo “Câncer antes dos 50: como os dados podem ajudar nas políticas de prevenção” demonstram a necessidade de implantação de políticas públicas de saúde para a prevenção do câncer, estimulando a adoção de hábitos de vida saudáveis que possibilitem minimizar o impacto dos fatores de risco. As ações de prevenção têm um importante papel junto à população mais jovem, pois evita a exposição prolongada aos fatores de risco para desenvolvimento de tumores.

Os levantamentos de dados do Sistema de vigilância de fatores de risco e proteção para doenças crônicas por inquérito telefônico (VIGITEL) indicam que entre 2010 e 2017 houve uma redução da proporção da população tabagista, entre 18 e 44 anos, nas capitais brasileiras, em decorrência do Programa Nacional de Controle do Tabagismo. “Temos a melhor experiência mundial de prevenção em política de tabagismo, reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS). O relatório da OMS mostra que o Brasil e a Turquia foram países que conseguiram cumprir cinco grandes recomendações da organização para redução do tabagismo na população”, comenta Santini. “Mas ainda precisamos seguir com as políticas públicas contra tabagismo e intensificar as informações sobre obesidade e prática de atividade física. É importante para enfrentar esse tipo de problema”.

O ex-diretor do Inca considera fundamental construir políticas semelhantes contra obesidade, por exemplo, envolvendo setores de produção de alimentos. “Precisa abordar excesso de açúcar, de sal, tudo que contribui para alimentação não saudável. A obesidade já é um problema sério no Brasil e vai repercutir não só no câncer, mas na diabetes, hipertensão arterial, cardiovascular. O governo tem que assumir a responsabilidade, junto com a sociedade”. Ele acredita que a obesidade deve ser tratada como questão de saúde pública. “Precisamos ter compreensão de que essas medidas são importantes, mas as ações são de longo prazo. Nenhuma vai causar impacto imediato. Infelizmente o câncer é assim, uma doença crônica. As mensurações dos resultados das políticas públicas são de médio e longo prazo”.

A pesquisa completa está disponível no site do Observatório de Oncologia.