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Publicado em 10/08/2017

Revisado em 14/08/2017

Cuidador: de atividades práticas a confidente

Dedicar-se a cuidar do outro e olhar por ele em todos os momentos. Ser um cuidador implica em saber desempenhar tarefas diárias como ajudar na locomoção do paciente, dar a medicação nas doses e horários certos e auxiliar no banho; mas implica também em levar conforto e carinho para alguém que passa por um momento difícil. É preciso vocação. “O cuidador desempenha papel fundamental no tratamento. Ele vai à consulta médica com o paciente, ouve toda a orientação do médico e a coloca em prática na casa do paciente, no dia a dia dele. Mas não é só isso. O cuidador zela pelo paciente. É fundamental que haja empatia para que o cuidador consiga se colocar no lugar da pessoa enferma, entenda o que ela sente e cuide adequadamente”, diz a enfermeira oncológica Verônica Torel de Moura, integrante do Comitê Científico do Instituto Vencer o Câncer.

Maria de Fátima Pires de Lima, de 64 anos, é uma cuidadora profissional. Ela começou como acompanhante de idosos, em 2003. Com o passar dos anos, suas responsabilidades foram aumentando e ela fez um curso para se tornar uma cuidadora, atividade que desempenha desde 2008. “Um bom cuidador precisa ser tolerante, paciente, ter jogo de cintura. Precisa se adaptar a realidade do outro, entender o momento dele”, diz.

Sua rotina é dividida entre duas pacientes. Sai logo cedo e em algumas noites dorme na casa de uma delas. Sua própria casa é praticamente um lugar de passagem para ela, onde, entre uma paciente e outra, toma um café e descansa um pouco. Maria de Fátima já cuidou de pessoas com diversas doenças, como câncer, Alzheimer, doença pulmonar, e por isso seu aprendizado é constante. “Eu aprendi como levantar um idoso, aprendi a fazer o dextro (medição de glicose no sangue), a aplicar a insulina, a medir a pressão arterial, muita coisa. Porque cada paciente precisa de uma coisa”, explica.

Muitas vezes, a relação com o paciente não é fácil logo de início. É preciso conquistar a confiança dele. “Já tive paciente que me mandava embora, não queria que eu ficasse. Nem sempre é fácil aceitar alguém em seu espaço, né? Então, o cuidador tem que ter paciência, ir aos poucos, com jeito”, comenta Maria de Fátima. E quando a confiança se estabelece, o cuidador se torna até um confidente, um parceiro de todos os dias. “Alguns falam do passado, contam histórias. Eu escuto tudo sem interferir. Porque eles precisam ser ouvidos”, acrescenta.

Nem sempre o cuidador é um profissional. Ele pode ser um familiar. Por questões financeiras ou por opção, muitos parentes acabam desempenhando a função de cuidar daquele que está doente.

O produtor Giancarlo Barone, de 38 anos, assumiu com os irmãos o papel de cuidar do pai, diagnosticado com câncer de pâncreas. “No início, pensamos em ter um cuidador profissional até porque não sabíamos como seria o tratamento. Mas depois desistimos porque ele reagiu bem e também é muito ativo, não aceitaria”, diz.

Ele e a irmã se revezam nos cuidados que vão desde a alimentação e acompanhamento nas consultas médicas e sessões de quimioterapia ao apoio psicológico, principalmente. “Nosso principal cuidado é dar força para ele porque não é uma coisa para se enfrentar sozinho. Desde o início, dissemos para ele ‘sempre vai ter alguém com você’. Ele não está lutando sozinho. Estamos com ele”, acrescenta.

Seja um cuidador profissional, seja um familiar, o preparo emocional é importante porque ele poderá passar por situações difíceis. “Ninguém cuida de ninguém sem estar bem. O cuidador desempenha atividades práticas, mas também ajuda na questão psicológica e emocional do enfermo. Por isso, ele tem que ter um bom preparo emocional e espiritual para ser um bom cuidador, porque o paciente precisa de alguém que lhe dê apoio”, ressalta a enfermeira oncológica Verônica Torel de Moura.

Nesses anos que trabalha com cuidadora, Maria de Fátima já passou por situações difíceis, com pacientes internados em estado grave e outros que faleceram. Impossível não sentir a perda, mas ela diz que lida com isso com tranquilidade. “É difícil, você fica baqueada nos primeiros dias. Depois você aceita. A gente sabe que isso pode acontecer então a gente se prepara. E isso não me faz desistir do meu trabalho. Enquanto eu tiver saúde eu vou continuar ajudando o outro a caminhar”.