Câncer / Notícias

Juliana Conte

Publicado em 28/07/2015

Revisado em 21/03/2017

Declaração sugere formas de melhorar atendimento no SUS

Com o objetivo de chamar a atenção do Ministério da Saúde para a questão do câncer, a segunda principal causa de morte no Brasil, a Abrale (Associação Brasileira de Linfoma e Leucemia), em conjunto com diversos médicos especialistas e mais de 50 entidades de apoio ao paciente oncológico, criaram um dossiê que descreve as dificuldades enfrentadas pelo paciente do SUS. O documento, que utilizou como uma das fontes a auditoria feita pelo TCU (Tribunal de Contas da União) em 2011, demonstra que mais de 60% dos indivíduos chegam ao sistema com a doença avançada e aguardam muito entre o diagnóstico e o início dos tratamentos. O tempo médio de espera é de 76,3 dias, no caso da quimioterapia, e 113,4 dias, no caso da radioterapia.

O dossiê produzido pela Abrale está dividido em cinco capítulos (prevenção, diagnóstico, tratamento, cuidados paliativos e gestão), e descreve de maneira didática a situação atual do câncer no Brasil, aonde se deseja chegar e apresenta sugestões de melhorias baseada nas demandas do paciente. O relatório foi entregue semana passada para o Assessor Especial do Ministro da Saúde, Dr. Fausto Figueira, que se comprometeu a trabalhar essas questões o quanto antes.

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“A partir da entrega desse documento para o Ministério da Saúde, vamos levar o assunto para o Conselho Nacional da Saúde, no qual a Abrale tem assento, para que consigamos também apoio para monitorar as demandas apontadas. Além disso, prevemos que o congresso Todos Juntos Contra o Câncer, que ocorrerá em setembro, será o momento de cobrar os estados e municípios, para saber o que realmente vem sendo feito, pois haverá representantes dessas esferas”, afirmou Merula Steagall, presidente da Abrale.

Na opinião de Merula, além do problema do diagnóstico tardio, outra situação muito comum é o erro no diagnóstico, que acarreta pacientes sendo erroneamente submetidos a tratamentos pesados de químio e rádio. “Infelizmente, isso é comum. Já chegou um caso aqui na Abrale de um paciente que tinha uma doença imunológica, mas recebeu diagnóstico de leucemia. Como o plano de saúde estava negando o tratamento,  nós estávamos tentando inseri-lo em outra instituição. Quando ele foi aceito, foram pedidos novos exames e análises de lâminas. E a partir daí foi comprovado o erro”, relata.

Pesquisas contra o câncer

Dr. Antonio Buzaid, chefe geral do Centro Oncológico Antônio Ermírio de Moraes, e dr. Fernando Maluf, chefe da Oncologia do centro, criadores do portal Vencer o Câncer, ajudaram a elaborar o documento que sugere melhorias no tratamento oncológico no Brasil. Durante a divulgação do projeto para a imprensa, que ocorreu ontem (27/07), em São Paulo, além da questão do diagnóstico tardio, ambos ressaltaram que deve haver uma desburocratização em relação às pesquisas clínicas no país. Com isso, paciente e governo ganhariam, pois o primeiro receberia um tratamento de primeiríssima qualidade custeado pela indústria e o segundo pouparia em recursos. O país tem participação somente de 4% nas grandes publicações científicas, enquanto os EUA têm 64%.

Segundo Buzaid, não há sentido em haver uma revisão tão demorada da CONEP (Comissão Nacional de Ética e Pesquisa), que pode levar mais de 12 meses, quando países como Estados Unidos ou a União Européia, que possuem grande tradição em pesquisa, já revisaram e liberaram. “Quem sai perdendo, e muito, é o paciente. Porque quando há liberação de um protocolo clínico no país, as vagas, normalmente, já foram todas preenchidas, ou então o médico tem muito pouco tempo para selecionar o paciente”, esclarece.

Maluf complementa dizendo que é preciso quebrar esse estigma de que os pacientes que participam de pesquisas são cobaias. “O paciente recebe um tratamento que nem os melhores hospitais são capazes de oferecer. Precisamos reforçar frente às autoridades essa questão, pois haveria não somente um ganho tecnológico, de melhora no tratamento, mas também na economia de recursos do governo.”

O oncologista explica que atualmente tramita no Senado um PL (projeto de lei) que deverá agilizar a liberação de pesquisas clínicas no Brasil. A proposta é que os comitês de pesquisa ganhem autonomia para decidir se o protocolo é ou não um protocolo ético científico ideal, e que esses estudos não precisem mais ir para a CONEP.