Câncer / Notícias

Publicado em 30/05/2019

Revisado em 31/05/2019

Expectativa para pacientes e médicos no maior evento mundial de Oncologia

De 31 de maio a 4 de junho, mais de 32 mil profissionais de todo o mundo discutirão as novidades que podem mudar o cenário do câncer.

 

Logo da ASCO 2019.

“Cuidando de cada paciente, aprendendo com cada paciente”. Esse é o tema em torno do qual especialistas de todo mundo se reúnem, de 31 de maio a 4 de junho, em Chicago, para o 55º Encontro Anual da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO). “O ASCO reúne os maiores especialistas do mundo e traz as maiores novidades em câncer. Os grandes avanços em oncologia são apresentados nesse evento”, ressalta o oncologista William William, membro do Comitê Científico do Instituto Vencer o Câncer, comentando sobre o evento que reúne mais de 32 mil profissionais de Oncologia de todo o mundo. A edição deste ano teve mais de 2.400 resumos aceitos para apresentação e mais de 3.200 resumos adicionais para publicação online. “O evento tem potencial de mudar o conhecimento e o tratamento das doenças”, complementa o oncologista.

“A expectativa para a Asco de 2019 é muito grande, com enfoque especial no papel das terapias direcionadas baseadas não mais em critérios subjetivos, como por exemplo o tipo do tumor ao microscópio, as comorbidades, as características clínicas da doença, mas sim com o papel dos biomarcadores orientando qual é o melhor tipo de tratamento para cada tipo de paciente”, avalia o oncologista Fernando Maluf, um dos fundadores do Instituto Vencer o Câncer. “Claramente nós vamos ter estudos muitos importantes com aumento da sobrevida, ou seja, uma mudança na história natural da doença nos tumores de próstata, tumores de mama, nos tumores de pâncreas, que é uma área bastante difícil da Oncologia. Nós vamos ter estudos importantes também focando na qualidade de vida dos pacientes”.

Para exemplificar, William cita estudos que envolvem sua principal área de atuação: câncer de cabeça e pescoço e de pulmão. “Há um trabalho de estratégias de imunoterapia como primeiro tipo de tratamento para câncer de cabeça e pescoço avançado. Hoje ela é considerada como segundo ou terceiro tratamento. O estudo prevê o uso mais cedo da imunoterapia no tratamento da doença, e os resultados são positivos. Provavelmente ela vai ganhar papel importante nessa área”, avisa.

 

Veja também: Especialistas do IVOC fazem um balanço da ASCO 2018

 

William também comenta um estudo que ele irá apresentar, com pacientes com lesões pré-malignas na boca. “Fizemos um perfil genético dessas lesões e descobrimos parâmetros das lesões com mais risco de virar câncer”. O trabalho foi realizado por mais de uma década, com acompanhamento de 8 a 10 anos dos pacientes. “Por conta do perfil molecular, conseguimos ver quem tem risco maior ou menor de desenvolver câncer. Esse material permitirá promover estratégias de prevenção a esses pacientes e esperamos inclusive desenvolver medicamentos para lesões pré-cancerígenas que possam reverter essa transformação de célula normal para cancerígena”.

Na área de tumores de pulmão, o oncologista destaca os estudos que usam imunoterapia como estratégia de tratamento antes da cirurgia. “Fazer imunoterapia antes pode levar à regressão importante do tumor e tem impacto até para evitar que o câncer retorne. Ele explica que ainda não há seguimento suficiente, mas esse é o objetivo.

“Outro dado importante em câncer de pulmão são as estratégias de refinamento do tratamento pós-operatório. Geralmente o paciente passar por quimioterapia e alguns estudos vão mostrar em que situações vale a pena fazer quimioterapia para aumentar a chance de cura e qual droga oferece maior chance. Há também estudo comparativo de dois tipos de quimioterapia que são habitualmente usadas para avaliar a menos tóxica. Assim será possível apontar a quimioterapia que tem efeito preventivo na recorrência com menos toxicidade e menos efeitos colaterais”, diz. “Há também drogas novas para câncer de pulmão pequenas células, que é difícil de tratar, e estudos esmiuçando informações sobre tempo de tratamento e que medicamentos usar para doença avançada”.

 

Novidades em várias áreas

O encontro de 2019 do ASCO traz novidades em muitas outras áreas da Oncologia: avanços nas terapias direcionadas para câncer de pâncreas, próstata e pediatria, bem como novas abordagens para superar o acesso limitado ao tratamento do câncer.

Fernando Maluf destaca alguns estudos importantes:

“Os trabalhos mais importantes na área de câncer de próstata vão avaliar o papel da Enzalutamida, um antagonista do receptor de andrógeno de última geração junto à castração, frente à castração isolada com aumento de sobrevida global. Esse vai ser um trabalho da sessão plenária.
Ainda na área de próstata, o papel da Darolutamida em pacientes com doença castração resistente em termos de qualidade de vida e dor sabendo que o estudo, que foi um estudo chamado Amaris, já havia mostrado um benefício importante na sobrevida livre de metástase. Também vai ter uma atualização do estudo que comparou o papel da castração hormonal com radioterapia versus radioterapia, estudo chamado GETUG-AFU 16, com pacientes com câncer de próstata e recidiva bioquímica no qual já havia uma importante melhora na sobrevida livre de progressão e nessa atualização uma importante melhora também na sobrevida livre de doença metastática em 10 anos, favorecendo o tratamento combinado, onde o benefício foi de 75% versus 69% da radioterapia isolada.

Ainda importante na área de câncer urológico, atualização do estudo Keynote 426 de Pembrolizumabe + Axitinibe versus Sunitinibe em pacientes com risco intermediário ou desfavorável ou componentes sarcomatóides – uma atualização que foi positiva para todos os subgrupos. E nessa análise pacientes com risco intermediário ou desfavorável se beneficiaram da combinação de Pembrolizumabe e Axitinibe.

Ainda na área de câncer urológico, um estudo importante, o HCRNGU 14182, que randomizou pacientes com câncer metastático de bexiga após o tratamento com quimioterapia baseada em platina entre Pembrolizumabe por 2 anos versus placebo e que mostrou um coorte de 107 pacientes, melhora importante na sobrevida livre de progressão de 8.2 meses versus 5.6 meses, o que foi significativo frente ao placebo.

Também um outro estudo importante dos dados de Enfortumabe Vedotina, uma nova droga, em pacientes com câncer de bexiga tratados com platina e também com inibidores do checkpoint previamente. Ainda nessa área, um estudo importante de uma outra droga chamada Vofatamabe, que é um inibidor do FGFR3, em combinação com Pembrolizumabe no tratamento do câncer de bexiga. Esse estudo envolveu 35 pacientes que já haviam falhado na terapia com platina.

Na área de câncer de ovário, um importante estudo comparando o Niraparibe, um inibidor da PARP, + Bevacizumabe, que é um antigiogênico, versus Niraparibe puro em doença recorrente platino sensível de ovário. Esse estudo mostrou que a combinação foi associada a uma importante melhora na sobrevida livre de progressão de 11.9 meses para combinação frente a Niraparibe isolado, que foi de 5.5 meses. Um outro importantíssimo estudo também nessa população de paciente, estudo SOLO2, que comparou Olaparibe versus quimioterapia em pacientes que tinham mutação germinal do BRCA e que mostrou que Olaparibe no estudo com 266 pacientes foi responsável por uma melhora significativa na taxa de resposta de 72 versus 51% para quimioterapia bem como na sobrevida livre de progressão com a redução do risco de progressão ou morte de 38%.

Ainda nessa área, um estudo chamado CLIO, de fase 2, comparou Olaparibe monoterapia versus quimioterapia na doença platino resistente e avaliou Olaparibe, que é inibidor da PARP, versus quimioterapia onde um dos possíveis esquemas incluindo Gemcitabina, Topotecan, Paclitaxel poderiam ser escolhidos. O estudo envolveu 100 pacientes e mostrou que o tratamento com Olaparibe foi responsável por uma taxa de resposta mais favorável do que quimioterapia, incluindo os pacientes com BRCA mutado e não mutado.

Um estudo interessante chamado PHAEDRA avaliou Durvalumabe, inibidor do PDL1, em pacientes com câncer avançado de endométrio que haviam falhado de 1 a 3 linhas de quimioterapia. Esse estudo, que envolveu 71 pacientes, mostrou que Durvalumabe foi associado a uma taxa de resposta de 40% em pacientes que tinham deficiência dos genes de reparo.

Avelumabe, um outro inibidor do PDL1, foi avaliado em pacientes que tinham câncer de endométrio recorrente com alteração do pole ou estabilidade de microssatélites ou até mesmo instabilidade de microssatélites. Esse estudo, que envolveu 33 pacientes, mostrou também uma taxa de resposta bastante interessante de Avelumabe.

Na área de câncer de colo de útero, um estudo que envolveu 700 pacientes comparou a cirurgia minimamente invasiva com a cirurgia radical, a histerectomia radical. Esse estudo mostrou de modo bem importante que pacientes que se submeteram à cirurgia minimamente invasiva apresentaram mais recorrências do que pacientes operados com cirurgia aberta. A taxa de recorrência nos pacientes que operaram por aberta foi de 7% e 5.4% de morte comparado com 8,1% e 5% de morte na cirurgia minimamente invasiva. Mas na análise multivariada a cirurgia minimamente invasiva aumentou em 2.2 vezes o risco de recidiva.”

 

Outros destaques incluem:

– Associação da obesidade com desfecho de câncer de mama em relação aos subtipos de câncer.

– Segurança da gravidez após o câncer de mama em pacientes portadores de uma mutação BRCA.

– Alternativas à terapia padrão para câncer de próstata sensível a hormônio metastático.

– Análise de toxicidade em pacientes idosos com câncer tratados com quimioterapia.

– Interesse da hormonioterapia curta associada à radioterapia como tratamento de resgate para sobrevida livre de metástases após prostatectomia radical.

– Tendências contemporâneas no tratamento do câncer de próstata de baixo risco.

– Imunoterapia na terapia de primeira linha para carcinoma de células renais metastático.

– Decisões dos adultos mais velhos sobre a quimioterapia paliativa.

– Efeitos de um programa de intervenção estruturado para melhorar a atividade física de adolescentes e jovens sobreviventes de câncer.

– Impacto do câncer nas atividades físicas e mentais da vida diária em jovens adultos sobreviventes.

– Programa de reabilitação cognitiva para melhorar a cognição de pacientes com câncer tratados com quimioterapia.

– Alterações do peso corporal em sobreviventes de câncer de mama jovem.

– Efeitos do exercício físico na fadiga e força muscular relacionadas ao câncer em pacientes com câncer de mama.

– Alternativas para o manejo de náuseas e vômitos induzidos por quimioterapia.

– Impacto da cessação do tabagismo em cânceres de cabeça e pescoço localmente avançados submetidos à radiação.

– Avaliação de novas combinações de medicamentos para tratamento em câncer de ovário, com diversos estudos comparativos.

– Estimativas e cenários médicos para o tempo de sobrevivência em mulheres com câncer de ovário recorrente.

– Sintomas da menopausa em sobreviventes de câncer de ovário

– Repensando a vigilância do câncer de mama em mulheres com câncer de ovário associado a BRCA.

– Impacto de alternativas de medicamentos na dor e qualidade de vida em pacientes com câncer de próstata não metastático resistente à castração.

– Risco de depressão após o tratamento do câncer de próstata.

– Taxas de recorrência em pacientes com câncer de colo do útero tratados com histerectomia radical abdominal versus minimamente invasiva.

– Comparação do tratamento definitivo do câncer do colo do útero com quimioterapia e radiação concomitantes entre dois centros com recursos variáveis e oportunidades para melhorar a prestação do tratamento.