Câncer / Notícias

Juliana Conte

Publicado em 27/04/2015

Revisado em 22/05/2019

Faltam máquinas de radioterapia no Brasil

Imagine ser diagnosticado com um câncer e o médico explica que você vai ter que passar por sessões de radioterapia — cerca de 60% dos tipos de neoplasias requerem esse tipo de tratamento. Entretanto, assim como 150 milhões de brasileiros, você não possui plano de saúde e depende exclusivamente do SUS. Dependendo de diversos fatores, como o local em que você mora, pode ser que demore mais de três meses até que se inicie o procedimento. O tempo médio de espera entre o resultado do diagnóstico e o início do tratamento radioterápico pode chegar a 113 dias, segundo o último levantamento do TCU (Tribunal de Contas da União), publicado em 2011.

Como funciona a radioterapia

Falta de máquinas e de profissionais capacitados são algumas das possíveis explicações para esse “apagão” da radioterapia no Brasil. O déficit de equipamentos gira em torno de 135 unidades. Como resultado, há atualmente todos os anos cerca de 90 mil pacientes com câncer que necessitam de tratamento com radioterapia mas não têm acesso a ela. Para complicar ainda mais, há dois estados da federação (Roraima e Amapá) que sequer possuem serviço de radioterapia. Nestes casos, os pacientes são obrigadas a viajar até outros estados para conseguir tratamento.

“O processo para se conseguir acesso longe dos grandes centros é muito lento. Acredito que o crescimento vegetativo da população deixou a situação ainda pior que na época que o TCU fez esse estudo. A OMS (Organização Mundial da Saúde) recomenda uma máquina para cada 600 mil habitantes. Então, nós teríamos que ter um pouquinho mais que o dobro funcionando”, afirma Eduardo Weltman, da SBRT (Sociedade Brasileira de Radioterapia).

Ritmo lento

Em 2013, o então ministro da Saúde, Alexandre Padilha, anunciou a compra de 80 aceleradores lineares para serem distribuídos em 22 estados e no Distrito Federal. Ao entrarem em funcionamento, a pasta prevê que os aparelhos vão suprir 25% da demanda no SUS.

Segundo informações de Patricia Sampaio, do Departamento de Atenção Especializada e Temática da Pasta, que esteve recentemente discutindo o assunto no último fórum promovido pelo Instituto Oncoguia, em Brasília, a previsão é que até cinco aparelhos sejam entregues ainda este ano. [relacionados]

“Teremos quatro ou cinco máquinas funcionando, mas em serviços que já existem. Na verdade, teremos um aparelho a mais nesses serviços. Não estão sendo criados centros novos, por enquanto, porque para isso é necessário grande infraestrutura e capacitação de médicos, físicos, técnicos”, argumenta Weltman.

De acordo com o parecer da SBRT, publicado no site da entidade em 2013, as técnicas mais modernas de radioterapia (como a de intensidade modulada, chamada de IMRT), que permitem um melhor controle de doença e diminuição de toxicidade, são utilizadas apenas por algumas instituições públicas de grande porte — as chamadas “ilhas de excelência” — e por alguns serviços privados não conveniados ao SUS. Ou seja, a incorporação de novas tecnologias em radioterapia pelo SUS não acontece há muito tempo.

“Alguns planos de saúde já oferecem esse tipo de rádio, que serve para tumores da cabeça e pescoço, de próstata e ginecológico. Ele concentra altas doses de radiação no tumor alvo ao mesmo tempo em que aplica doses bem menores nos tecidos sadios, diminuindo a intensidade dos efeitos colaterais agudos e das sequelas. Ainda assim, as máquinas que vão chegar não estarão equipadas para tratamentos desse tipo. O problema basicamente da radioterapia conformada, que é a do SUS, é em relação aos efeitos colaterais. Se você precisa dar uma dose alta para um câncer de próstata, por exemplo, o risco de os pacientes terem complicações e lesões definitivas tanto no reto como na bexiga são altas. Então, para evitar esses efeitos indesejados, não conseguimos chegar até a dose ideal, que poderia ter uma maior probabilidade de cura”, completa Weltman.