Câncer / Notícias

Publicado em 18/09/2019

Revisado em 18/09/2019

Os desafios dos antineoplásicos orais

Com medicamentos enviados às residências, tratamentos passam para autogestão dos pacientes. Equipe multidisciplinar busca alternativas para garantir adesão e melhores resultados.

Comprimidos e cápsulas de medicamento espalhadas em superfície.

 

“O mundo inteiro está indo para os medicamentos orais e aqui temos essa barreira mantida. Todo mundo faz um grande esforço para ter remédios orais, é muito mais simples, muito mais fácil de acondicionar do que os injetáveis”, questiona o oncologista Antonio Buzaid, referindo-se aos antineoplásicos orais para o tratamento de câncer e o paradoxo vivido no Brasil de as medicações orais contra os tumores serem aprovadas no país, mas as seguradoras só serem obrigadas a oferecer aos pacientes após a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), que se reúne a cada dois anos, inserir em seu Rol de Procedimentos e Eventos em Saúde.

O obstáculo apontado pelo médico, um dos fundadores do Instituto Vencer o Câncer, é o primeiro desafio. Quando o paciente tem os medicamentos em mãos, vem a preocupação de garantir informação, orientação e acompanhamento, para que seu uso seja feito de forma correta, de modo que não impacte na eficácia nem na adesão ao tratamento. Como muitas vezes os medicamentos são enviados diretamente às residências – não mais distribuídos em hospitais ou centros de saúde – torna-se mais difícil dar as orientações necessárias aos pacientes.

“Os antineoplásicos, nos últimos anos, tomaram uma proporção enorme. Desde 2012 cerca de 30% dos medicamentos que vêm para o mercado são de antineoplásicos orais”, destaca Dulce Couto, farmacêutica do Instituto Nacional do Câncer (Inca). “No Inca, 40% da nossa padronização é de antineoplásico oral. Com isso, há uma mudança na terapia do câncer. Uma administração que era centrada na administração venosa passa a ser também domiciliar e a responsabilidade por esse gerenciamento passa a ser do paciente e do seu cuidador”.

Para a farmacêutica do Inca, é preciso desenvolver no paciente a habilidade de autogerenciar o tratamento, ter a adesão necessária e tomar seus medicamentos da forma adequada, para atingir os melhores resultados. “Precisamos cuidar desse acesso, porque não basta entregarmos o medicamento”.

Dulce conta que há casos de equívocos cometidos por pacientes no uso dos medicamentos enviados via Correios, que causam preocupação. Ela cita uma situação em que a mãe recebeu os antineoplásicos da filha em casa e chegou inconformada na unidade de saúde porque o líquido com que ela dava o medicamento à filha tinha acabado. “Quando a farmacêutica foi entender qual era o líquido, descobriu que se tratava do fluído usado para manter o medicamento na temperatura adequada, que não era para ingerir e ela estava dando junto com o antineoplásico”, lembra. “A dispensação tem que ser sempre orientada. O paciente precisa saber como tomar o medicamento; ter informações mínimas para que não ocorra o que aconteceu com essa criança, que acabou tomando um líquido que não era compatível com o tratamento que ela precisava”.

Ela acredita que o desafio é conter situações como essa, orientar o paciente. “Ele não está recebendo uma mercadoria qualquer. Ele está recebendo um medicamento que tem seu efeito benéfico, mas também pode fazer muito mal. Esses antineoplásicos orais têm um poder de prejuízo ao paciente, que precisa ser considerado. Isso é muitas vezes banalizado”, pondera. “Não basta só a tecnologia. Já se sabe que é preciso investir na melhoria do cuidado multidisciplinar a esses pacientes. A farmacoterapia precisa ser adequada, ideal, dentro dos pilares da necessidade, da efetividade e da segurança. O mínimo que se pode oferecer ao paciente é informação por escrito, assegurando a compreensão por parte do paciente e do familiar, para o uso racional e minimamente é preciso explicar ao paciente a indicação do tratamento, mecanismo de ação, esquema de tratamento, armazenamento, precaução de segurança”.

Uma questão importante destacada por Dulce é que quando se fala em efetividade, a adesão ao tratamento é fundamental. “E quanto à segurança, as reações adversas podem levar à não adesão e à inefetividade desse medicamento”.

Alguns aspectos importantes para garantir os melhores resultados ainda deixam a desejar tanto no Brasil quanto no exterior, como demonstraram os exemplos apresentados pela farmacêutica. Um trabalho realizado em 2012 na Irlanda constatou que 63% dos farmacêuticos não se achavam em condições de oferecer assistência farmacêutica aos pacientes no uso dos antineoplásicos orais. No quesito revisão de farmacoterapia, em injetável 100% eram revisados e apenas 11% da prescrição oral era revisada nas farmácias. “Aqui no Brasil eu acredito que muito próximo de 100% dos intravenosos são revisados, mas quanto ao oral, isso é bastante banalizado. A gente não vê como uma prática”.
Um exemplo positivo apresentado foi o guia de validação da prescrição ao paciente oncológico editado na Espanha, determinando que toda prescrição deve passar pelo farmacêutico – não só dos intravenosos, mas também os medicamentos orais. Dulce acredita que essa validação da prescrição pode ser uma ferramenta de rastreabilidade clínica para melhoria do processo.

 

Dificuldades na prática

“Muitas vezes o paciente recebe medicamento em domicílio e não sabe avaliar se está em condições adequadas ou não para o seu uso. Isso às vezes é um grande problema”, conta Mario Jorge Sobreira da Silva, Diretor de Desenvolvimento Técnico-Científico da Sociedade Brasileira de Farmacêuticos em Oncologia (Sobrafo). “Não basta que eles tenham acesso ao produto se não tiverem acesso adequado às orientações”.
Ele destaca que um dos principais objetivos do profissional farmacêutico é ajudar especialmente na educação em saúde, para uso correto dos medicamentos, papel fundamental com pacientes oncológicos, que geralmente são submetidos a uma grande diversidade de medicamentos e os antineoplásicos orais não são isentos de risco.

Cabe ao farmacêutico incorporar as novas drogas no tratamento, buscando efetividade terapêutica, evitando eventos adversos e com o máximo de segurança possível, garantindo qualidade de vida. “Nós verificamos os problemas relacionados à terapia, analisamos esses problemas, estabelecemos plano de cuidado com a equipe de saúde e monitoramos esse paciente de forma que ele possa ter os melhores benefícios possíveis”.

Entre os problemas que o profissional pode identificar, Silva relata os relacionados à dosagem e eventos adversos, além de usos desnecessários de medicamentos, que podem ser minimizados pelo trabalho e observação do farmacêutico. “Trabalhos demonstram que o farmacêutico ajuda a elevar a qualidade de vida do paciente a partir de orientações fornecidas e melhora o conhecimento, as habilidades e a atitude do paciente em relação ao seu tratamento”, comenta Silva. “Traz melhora em relação à adesão e ajuda no processo de minimização dos riscos. O paciente se sente um pouco mais empoderado a partir do momento em que é acompanhado do profissional farmacêutico no seu dia a dia”.

Sobreira explica que esse acompanhamento é essencial especialmente para pacientes que usam antineoplásicos que estejam há menos de cinco anos do mercado, devido à questão da segurança, que ainda é bastante desconhecida.

A atuação do profissional também é importante, especialmente porque o paciente oncológico não raramente é atendido por outros médicos além do oncologista, com mais medicamentos. “Precisamos conciliar os medicamentos para que o paciente possa ter melhores resultados. Devido à associação de diversos medicamentos, o risco de interação medicamentosa é grande; são pacientes polimedicados”.

 

Acompanhamento da enfermagem oncológica

“Costumo dizer que somos corresponsáveis pela terapia oral”, diz a enfermeira oncológica Veronica Torel de Moura, da Beneficência Portuguesa de São Paulo. Ela refere-se à mudança do paradigma que chega com os remédios enviados à residência do paciente, tornando-os responsáveis, dando maior autonomia em relação ao tratamento, e ao desafio de ajudar a garantir a adesão mesmo à distância, que considera mais complicado.

A enfermeira destaca a importância desse acompanhamento para evitar que doenças e efeitos colaterais prejudiquem o tratamento. “Se a gente fizer esse trabalho de corresponsáveis pelos tratamentos deles, conseguimos atuar por exemplo numa mucosite, numa diarreia grau 1, 2 e não grau 4, que a medicação será suspensa e ele nunca mais vai usar esse tratamento. Nós, profissionais da linha de frente, podemos mudar o prognóstico do paciente, atuando e cuidando adequadamente”.

Para ela, com esse seguimento adequado é possível verificar a adesão e gerir o tratamento. O acompanhamento leva em conta as necessidades específicas de cada paciente, personalizando a assistência. Sabendo a melhor hora de falar, passar informações, orientar, para não sobrecarregar nem deixar faltar algo essencial.

Com os medicamentos sendo enviados às residências dos pacientes, muitas vezes sem orientação farmacêutica, Verônica conta que faz contatos via telefone, manda mensagem, busca acesso para ver se o tratamento está indo bem e o paciente compreendeu tudo. “Fazemos essa educação de paciente, com avaliação inicial, revisão de orientações, prescrição e seguimos graduando sintomas”. São muitas dúvidas: qual é a medicação, como age, número de comprimidos, doses, qual a variável, até que horário pode tomar, como tem que ser essa tomada, com o que vai tomar, como guarda medicação, interação medicamentosa. Pode amassar? Pode triturar?

Para Verônica, é essencial, durante a orientação, considerar os hábitos de vida, para que a pessoa não deixe de tomar o medicamento por falta de adaptação. “Não adianta falar que deve tomar medicação às 8 da manhã se o paciente dorme muito tarde, não consegue dormir cedo, acorda tarde. Precisamos adaptar a medicação, as doses, ao estilo de vida dele. Às vezes tem muita náusea, muitos vômitos com a medicação, porque toma de manhã. Então passa a tomar a noite e melhora substancialmente”, avalia. “A equipe multiprofissional desempenha papel primordial no tratamento com medicações orais no que tange à educação, gestão de efeitos adversos e acompanhamento da adesão medicamentosa. Temos o dever de atender esse paciente do início ao fim do tratamento medicamentoso oral e temos que ter estratégias para seguir esse paciente. De alguma forma temos que conseguir seguir”.