Câncer / Notícias

Viviane Pereira

Publicado em 13/09/2019

Revisado em 13/09/2019

Precisamos garantir acesso integral à quimioterapia oral, com medicamentos e orientações aos pacientes

Com Dia Nacional de Luta por Medicamentos e simpósio sobre o tema, a lembrança de que a terapia via oral tem que ser levada a sério tanto quanto a intravenosa.

Mão em primeiro plano com cápsula de medicamento na palma.

 

“O câncer não espera”. O oncologista Antonio Carlos Buzaid, um dos fundadores do Instituto Vencer o Câncer (IVOC), destaca essa frase quando procura lembrar a importância de ampliar o acesso aos medicamentos para pacientes oncológicos. É um bom momento para falar do tema, em mais um Dia nacional de luta por medicamento, comemorado em 8 de setembro para reconhecer a batalha de associações e entidades pelo mundo que estão engajadas nessa luta.

Buzaid ressalta o grande número de medicamentos anticâncer que são administrados via oral e a importância de sua incorporação nos planos de saúde. O médico tem levado a mensagem à população, em artigos, entrevistas e volta à discussão com a realização, pelo IVOC, do II Simpósio de Farmácia Clínica, no dia 17 de setembro de 2019, das 14h30 às 18 horas, no Hotel Meliá Paulista (Av. Paulista, 2181, São Paulo). O evento é gratuito e para participar basta fazer inscrição. O oncologista fará a abertura e a diretora do IVOC, Neide Rocha, uma apresentação institucional da entidade.

A advogada Andréa Bento vai apresentar a timeline do Projeto Sim para quimio oral, que tem o objetivo de solicitar à Agência Nacional de Saúde (ANS) que após a análise da ANVISA os medicamentos antineoplásicos orais sejam automaticamente incorporados ao rol da ANS, como já é feito com os medicamentos de aplicação intravenosa. Todos podem apoiar essa luta assinando o manifesto #SimParaQuímioOral. Os debates, moderados pelo médico Oncologista Fábio Schultz, contarão com o farmacêutico Kaléu Mormino Otoni, a nutricionista Mariana Ferrari e a enfermeira Thays Scarpelli.

O  grande desafio dos quimioterápicos orais é o acesso pleno, não apenas garantindo que a população tenha acesso aos medicamentos, mas também esclarecendo as muitas dúvidas que ainda existem sobre o tema, os mitos e verdades, os obstáculos enfrentados por pacientes e equipes multidisciplinares para garantir adesão e fazer com que esse tipo de medicação possa beneficiar muitos pacientes.

“A quimioterapia oral provocou uma grande revolução no tratamento oncológico”, afirma Otoni. Para o farmacêutico, a alternativa possibilita ao paciente um conforto maior, já que consegue tomar a medicação sem alterar sua rotina, seguindo com seu trabalho, lazer, tendo tempo com a família, sem precisar ir ao hospital ou clínica para receber a medicação na veia. “Foi um marco na Oncologia”. Entretanto, ele chama atenção para o fato de que não deixa de ser um quimioterápico, que exige cuidados e pode provocar efeitos colaterais como os medicamentos ministrados por via endovenosa. “Pode ter náusea, vômito, queda de parâmetros sanguíneos (hemoglobina, plaquetas) e tudo isso precisa ser monitorado”.

Otoni acredita que com o câncer tornando-se cada vez uma doença crônica, esse tipo de tratamento deve ser mais recorrente. “Hoje em dia quem tem câncer não está fadado à morte. O paciente pode viver muitos anos. Com a revolução da indústria farmacêutica, a tendência é ter cada vez mais pacientes com esse perfil, tomando esse tipo de droga”.

“Uma das barreiras da quimioterapia oral reside no fato de o paciente ir ao consultório, receber orientações do médico e voltar para casa e se tratar. Grande parte dos convênios não dispensa o medicamento via oral no hospital – é enviado via malote para a casa do paciente, que fica sem orientações complementares”, comenta Thays. Para a enfermeira, o grande desafio é fazer esse acompanhamento para customizar o atendimento. “Precisamos entender quem é o paciente, a família, o cuidador e toda sua condição, sua esfera psicossocial. Conhecer a rede de suporte para o caso de intercorrência e a rede financeira, se precisar manejar toxicidade. É um processo de educação e saúde e precisa adequar de acordo com a realidade e o entendimento de cada um”.

Depois da orientação, vem o monitoramento semanal via telefone e presencial a cada ciclo, para monitorar toxicidade e evitar problemas graves. Thays lembra que a toxicidade vai do grau 1, mínima, para o grau 4, que é grave, e com o acompanhamento é possível intervir antes que o paciente chegue no pior nível e tenha que suspender o tratamento. “O acompanhamento também é importante para a adesão, essencial para o sucesso do tratamento. Fazemos o recordatório, para saber como o paciente está tomando a medicação, e descobrimos muitas falhas. Falta de adesão não é só parar de tomar o remédio ou esquecer: é também tomar de forma errada, na dosagem errada, no horário errado”.

Cada medicação via oral possui especificações diferentes: tem as que são em jejum, outras são 30 minutos após a refeição, há as que são administradas junto com a refeição. “Como o remédio deve ser tomado no horário específico, é preciso organizar a alimentação”, avisa a nutricionista Mariana. Ela comenta que por ser um medicamento bastante parecido com o convencional, muitos pacientes acham que não precisam fazer restrições alimentares como no tratamento via endovenoso, mas destaca que a alimentação saudável é fundamental.

“Não é comum ver pessoas que fazem tratamento com quimioterapia oral e evitam comer alimentos que podem interagir. Temos o exemplo comum da grape fruit – toranja – que interage com vários medicamentos, entre eles a quimioterapia. Também têm pacientes que tomam chás de ervas, de folhas, e não comunicam à equipe. Como na consulta médica há outros assuntos a tratar, é preciso conversar com a nutricionista especializada para ter essas orientações e ajudar a melhorar a alimentação. É essencial comunicar tudo à equipe, até alteração de peso corporal, porque em muitos casos disso depende o ajuste da dose. Muitos não têm o costume de se pesar nem consciência corporal para notar mudança, mas é uma questão importante”.

Para Mariana, é comum o paciente que faz tratamento com quimioterapia oral demorar mais para relatar efeitos colaterais do que aquele que recebe a medicação endovenosa no ambulatório. “A pessoa pode ficar mais tempo com diarreia, náusea, mucosite, achando que deve ser normal o efeito colateral e por isso precisa aguentar – e são efeitos que podemos trabalhar na nutrição. Em casos de náusea, mudar a qualidade da alimentação, a forma como os alimentos são preparados, indicar usar menos gordura e mais cozidos, por exemplo. Com diarreia, tiramos os alimentos gordurosos, reduzimos fibras, leites e derivados mais gordos e com muita lactose. Para a mucosite, sugerimos evitar alimentos picantes”.

É preciso ainda reforçar os cuidados que são necessários para todos, mas especialmente para o organismo que está mais frágil em um tratamento oncológico, como prestar atenção na validade dos alimentos, o acondicionamento em temperatura adequada e higiene – uma dica é higienizar frutas e legumes com hipoclorito de sódio. A nutricionista sugere evitar alimentar-se na rua e, se for comer fora, escolher bem o local. “Se uma pessoa que não está em tratamento come algo na rua e passa mal, já sabe que a indisposição está relacionada ao que comeu. Para quem faz quimioterapia, além do remédio debilitar as funções, ações como essa pode confundir e o paciente não saberá se a indisposição é pela alimentação inadequada ou efeito colateral”.

Vamos conferir alguns mitos e verdades sobre esse tipo de medicação. Em caso de dúvidas, é importante procurar ajuda não apenas do médico, mas também da equipe multidisciplinar especializada em oncologia: farmacêuticos, enfermeiras, nutricionistas e outros profissionais, que vão explicar e orientar sobre os medicamentos. De forma geral, fica o recado:  a terapia via oral tem que ser levada a sério tanto quanto a endovenosa.

 

Mitos e verdades sobre a quimioterapia oral

Mito: A quimioterapia oral não faz o mesmo efeito que a administrada na veia.

Verdade: Tomando corretamente, a quimioterapia oral será um tratamento tão efetivo quanto o endovenoso.

 

Mito: A quimioterapia oral não é como a administrada na veia – é um comprimido como outro qualquer, que eu tomo para dor ou gripe.

Verdade: A quimioterapia oral é um tratamento exatamente como a quimioterapia endovenosa, mudando apenas a forma de administrar a medicação. O tratamento precisa ser levado a sério como se fosse quimioterapia tradicional, com todos os cuidados.

 

Mito: Se eu esquecer de tomar o remédio, não faz mal, é só um comprimido. E se perder a hora também tudo bem.

Verdade: Tal qual a quimioterapia administrada na veia, a quimioterapia oral precisa ser tomada exatamente como o médico prescreveu, respeitando frequência, doses e horários. Na dúvida, um farmacêutico especializado pode tirar dúvidas e dar orientações.

 

Mito: Como é um remédio simples, que tomo em casa, não preciso fazer acompanhamento médico e de exames tão rigoroso.

Verdade: A quimioterapia oral é um medicamento como a endovenosa e necessita dos mesmos cuidados, com consultas periódicas ao médico, acompanhamento da equipe multidisciplinar para monitorar possíveis reações adversas e minimizar efeitos colaterais, exames laboratoriais para acompanhar a reação do organismo à medicação.

 

Mito: Eu tomo outros medicamentos, mas como essa medicação não vai direto na veia, não preciso me preocupar em avisar ao médico.

Verdade: É preciso comunicar aos profissionais de saúde – médicos, farmacêuticos, enfermeiros – todos os medicamentos que o paciente toma para verificar se existe interação medicamentosa. Algumas substâncias podem interagir entre elas e prejudicar os tratamentos. Dependendo do caso, os profissionais podem fazer alterações no horário da administração da medicação. As pessoas que fazem uso de polifarmácia – precisam tomar remédios para outras situações de saúde – devem ter atenção especial. Os profissionais vão definir a estratégia adequada e garantir o melhor tratamento, que é bem individualizado.

 

Mito: Minha colega toma a quimioterapia oral dela em jejum e faz efeito, também vou tomar a minha.

Verdade: Cada caso é único, a administração varia de medicamento para medicamento e também os horários e forma de tomar devem ser adaptados à rotina de cada paciente, seguindo a indicação médica.

 

Mito: Quando eu tomava quimioterapia na veia precisava cuidar do que eu comia, ter uma alimentação mais saudável. Agora com a quimioterapia oral não preciso me preocupar com isso.

Verdade: Assim como a quimioterapia endovenosa, a medicação oral debilita as funções do organismo e ter uma alimentação saudável, em horários equilibrados com o momento de ingerir o medicamento é fundamental para o tratamento.

 

Mito: Se eu falar para o médico os efeitos colaterais que senti, ele vai parar meu tratamento.

Verdade: A maior parte dos efeitos colaterais são manejáveis, ou seja, os profissionais de saúde conseguem fazer intervenção para minimizá-los, seja alterando a forma de tomar, mudança na dose, na frequência ou no horário, ajustando alimentação ou, se for preciso, utilizar outro medicamento. É preciso avisar logo que note efeitos, para que eles não piorem.

 

Mito: A quimioterapia na veia tem mais efeito colateral do que a quimioterapia oral.

Verdade: Em geral os efeitos são os mesmos. A quimioterapia administrada de forma endovenosa pode ter efeito mais imediato, porque a medicação é aplicada diretamente na veia. Mas quanto aos efeitos tardios, são semelhantes.

 

Mito:  Conheci um paciente que tomou quimioterapia oral e teve efeitos colaterais, eu também terei.

Verdade: Os efeitos colaterais variam de paciente para paciente; alguns podem não sentir nada, outros terão em intensidade menor ou maior. Varia não apenas de paciente para paciente, mas também de medicamento para medicamento – há vários tipos de quimioterapia oral.

 

Mito: Eu não preciso me preocupar onde vou guardar a quimioterapia oral – posso colocar em qualquer lugar.

Verdade: O armazenamento da quimioterapia oral exige cuidados e deve respeitar as indicações da bula. Em geral, os medicamentos não devem ser guardados no banheiro ou na cozinha, porque são ambientes com muito calor e umidade, não adequados ao armazenamento de medicações.

 

Mito: Uma colega usou umas folhas para fazer um chá que disseram que ajuda a tratar o câncer. Não tem problema algum se eu tomar também, porque não estou tomando medicação na veia.

Verdade: Há várias substâncias em alimentos, chás, que podem interagir e prejudicar o tratamento. Tudo deve ser comunicado à equipe de saúde – médico, nutricionista, enfermeira – para que o cardápio seja adaptado às necessidades do seu organismo. Até alteração de peso corporal – seja aumento ou perda – deve ser comunicada, porque em muitos tratamentos a dose indicada pelo médico está relacionada ao peso do paciente. Um paciente que perde massa muscular tem toxicidade maior à quimioterapia. Pessoas com mesmo peso e massa muscular diferente terão efeitos diferentes diante do tratamento.

 

Mito:  Tomando quimioterapia oral em casa eu preciso ficar isolado do contato com a família.

Verdade: Não há nenhuma restrição de contato social por conta do tratamento de quimioterapia oral. O paciente não precisa se isolar da família nem separar os utensílios que utiliza.

 

Mito: É só um remédio comum, não é uma pilha, que eu preciso me preocupar, então posso jogar no lixo comum.

Verdade: A quimioterapia oral, como outros medicamentos, tem toxicidade e deve ser descartada no lixo químico.