Câncer / Notícias

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Publicado em 27/11/2017

Revisado em 27/11/2017

Um novo sentido para as perdas

“O amor não acaba junto com a morte”, diz a jornalista Natália Sousa, de 30 anos. Em setembro de 2015, ela perdeu o namorado, Gino, em decorrência de um câncer de estômago. Ele tinha 32 anos quando descobriu um tumor raro e agressivo. Entre o diagnóstico e seu falecimento foram 20 dias. “Meu mundo ruiu quando ele faleceu. A gente tinha uma relação genuinamente de amor, a gente pensava em ter filhos, fazíamos planos”.

A morte do namorado não foi a primeira perda de Natália. Um ano antes, sua mãe também faleceu, vítima de trombose pulmonar. Em tão pouco tempo, sua vida mudou completamente. O casamento, a casa que teriam e os planos que fizeram, passaram a ser parte de uma vida que não aconteceria mais.

Foi da necessidade de elaborar o luto e de ressignificar a dor que sentia, que nasceu o projeto “Tua vida em mim”. “No final de agosto de 2016, eu saí um dia para correr e vi um ipê. Pensei que logo seria Primavera e que em setembro faria um ano da morte dele. Tive uma vontade súbita de chorar, mas segurei. Ao mesmo tempo eu não tinha motivos para celebrar, então pensei o que eu podia fazer para aquele setembro ser diferente. Então eu fiz um blog e escrevi uma carta pedindo para as pessoas dividirem notícias boas comigo”, conta.

Natália entregou algumas cópias da carta para amigos e outras deixou em espaços públicos da cidade, como cafés, restaurantes, prédios comerciais, para que desconhecidos também participassem. Ela queria preencher os 30 dias de setembro com notícias boas: um emprego novo, uma gravidez, uma promoção; qualquer coisa que fizesse as pessoas felizes. E a iniciativa deu certo: as notícias foram sendo compartilhadas nas redes sociais com as hashtags #tuavidaemmim e #umanoticiaboa por conhecidos e desconhecidos.

Naquele setembro, Natália também publicou em seu blog os textos que escreveu sobre o namorado e a convivência com ele, e dividiu com os leitores a dor da ausência e o vazio. “Ele era um cara tão incrível que eu queria que o mundo todo o conhecesse. Ele foi cedo demais e essa foi a forma que encontrei para todo mundo conhecê-lo e saber o quanto ele era importante para mim”.

A escrita a ajudou a lidar com a perda e em setembro de 2017, Natália lançou o livro “Tua vida em mim” com os textos que postou no blog. “Ressignifiquei a dor, o sofrimento. Hoje consigo falar, consigo pensar sem sofrimento. E entendi que a vida é um ‘de repente’; de repente tudo acontece, tudo muda”.

Ressignificar perdas com a arte

Uma grave doença, a morte, um trauma, uma ruptura, podem, muitas vezes, provocar questionamentos nas pessoas e ressignificar essas perdas é dar um novo sentido a tudo isso. “Ressignificar não é esquecer, é poder aceitar a nova condição, é entender quem eu sou agora”, explica a psicanalista Carla Belintani, uma das criadoras da “A Casa Frida”. O projeto foi inspirado na pintora mexicana Frida Kahlo que durante sua vida passou por diversas dificuldades. “Ela teve muitas perdas, sequelas de um acidente, abortos, e conseguiu ser uma grande artista”, acrescenta a psicanalista.

O processo de ressignificação pode ocorrer de diversas formas e a arte pode ser um instrumento para isso. Carla Belintani usa filmes, obras de arte, música e literatura nas rodas de conversa que promove. À medida que a conversa se desenvolve, as pessoas trocam experiências, se reconhecem, se sentem parte de um grupo. “As pessoas vão colocando para o grupo o que ficou para elas do filme que foi assistido; falam do vazio que carregam, da falta; tem um resgate das esperanças”.

As rodas são temáticas. Luto e envelhecimento são alguns dos temas. No caso da morte, a psicanalista ressalta que é importante que não haja negação dela e que a pessoa viva o luto para que possa elaborar a perda.