Dia a Dia do Paciente / Efeitos Colaterais

Juliana Conte

Publicado em 04/02/2015

Revisado em 08/03/2017

Atividade física durante a quimioterapia, pode?

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A primeira pergunta que Déborah Amorim Thomaz de Aquino, 39 anos, fez ao oncologista após receber o diagnóstico de câncer de mama não foi sobre a possível queda de cabelos ou sobre os enjoos que poderia sentir pelos efeitos da quimioterapia . “Na verdade, eu só queria saber se poderia continuar correndo”.

Dentista de formação, mas corredora profissional desde 2004, sua rotina de exercícios era intensa. “Chegava a correr de sete a oito quilômetros, três vezes por semana”, orgulha-se. O dia a dia precisou de adaptações, mas ela não abandonou a atividade física mesmo durante o tratamento quimioterápico, iniciado em dezembro de 2013.

Como Débora já era corredora profissional, o médico não a proibiu, somente pediu para não forçar a barra a ponto de ficar cansada ao extremo, para que sua imunidade não caísse e a deixasse vulnerável a possíveis infecções.

A primeira sessão de químio não lhe trouxe incômodos. Foi na terceira que ela começou a sentir os efeitos colaterais. A vontade de correr já fazia parte dela há anos, mas para não se prejudicar, decidiu amenizar o ritmo e ficar somente com as aulas de natação e spinning. “Eu acredito que a corrida me ajudou, e muito, a superar o câncer. Quando você está em tratamento, há um risco muito alto de cair em depressão. Então, mesmo que eu acordasse desanimada, indisposta, eu me forçava a ir, porque aquilo me fortalecia. O nível de minhas plaquetas nunca ficou baixo”.

Apesar de ter precisado trocar a corrida por outras atividades nesse período, Débora usou sua atividade do coração como arma de forma simbólica. Transformou a rotina da quimioterapia numa prova. “A disciplina que eu tenho para a corrida eu transferi para minha vida. A cada sessão de químio, eu encarava como mais um quilômetro que eu precisava bater para concluir uma maratona. E isso me dava forças para visualizar o final do tratamento”.

O tratamento de Débora terminou em junho de 2014. Um mês depois, lá estava ela participando de uma corrida promocional da Nike na Indonésia, onde percorreu 23 quilômetros, ao lado de corredores do mundo inteiro. Em setembro, já estava correndo uma meia maratona (21km), e a próxima meta é a maratona de Boston, que acontece em abril.

Frequência é mais importante que intensidade

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Débora, à direita, não largou a corrida mesmo após ser diagnosticada com câncer de mama.

O fato de a corredora já praticar atividade física foi benéfico para seu tratamento. Mas isso não quer dizer que todo paciente diagnosticado deva sair correndo sem nenhuma orientação médica. Exercícios físicos não são proibidos. Pelo contrário, ajudam a manter a auto-estima e inibem os sintomas da quimio, mas é necessário atenção especial.

A médica fisiatra Christina Brito, coordenadora do Centro de Reabilitação do Icesp (Instituto do Câncer do Estado de São Paulo), explica que tudo vai depender da condição física da pessoa, da idade, se possui doenças pré-existentes e se é um indivíduo sedentário. “Tem de haver uma avaliação médica prévia e os exercícios precisam ser supervisionados. Mas é de extrema importância que o paciente faça alguma coisa, pois o exercício físico é uma intervenção barata e um ótimo remédio. Conciliar um treino aeróbico, como uma caminhada, com treinos de fortalecimento muscular, ajuda muito”, explica.

Um efeito colateral recorrente no tratamento da maioria dos cânceres é a fadiga. De acordo com o Instituto Nacional de Câncer dos Estados Unidos, entre 72 e 95% dos pacientes são afetados por esse cansaço extremo, que pode resultar na diminuição significativa da qualidade de vida. Estudos mostram que a prática diária de exercício pode diminuir a intensidade desse sintoma em até 50%.

Dra. Solange Sanches, Titular do Departamento de Oncologia Clínica do A.C.Camargo Câncer Center, explica que o exercício físico ajuda a combater a fadiga, estimulando a produção de endorfina, que gera a sensação de bem-estar. “Outra questão a se considerar é que, no final do tratamento, a quimioterapia pode gerar atrofia muscular, que ocorre quando há perda de massa muscular e o paciente sente muita dor ao fazer qualquer tipo de movimento. O exercício pode ser útil também nesse caso. A atividade não precisa e nem deve ser muita intensa. Na verdade, ela deve ser mais frequente que intensa. Caminhar, dançar, andar de bicicleta, yoga, pilates, são alguns dos exemplos”.

Mas é de extrema importância respeitar os limites do corpo. Sanches explica que, normalmente, o segundo e o terceiro dia após a quimio são os mais críticos, ou seja, quando o paciente sente-se indisposto, com boca seca, tontura. Então, a dica é pegar leve e descansar, principalmente se estiver com febre. Futebol, basquete, vôlei não são recomendados, pois são esportes de grande impacto e que podem gerar quedas.

O NCCN (National Comprehensive Cancer Network) dos Estados Unidos aconselha que o paciente comece num ritmo devagar, como uma caminhada de dez minutos ao redor do quarteirão, por exemplo. Dependendo do ritmo e do conforto da pessoa, é possível aumentar o percurso para 20 ou 30 minutos. O importante é que seja uma atividade diária.

Dicas

1) Faça um aquecimento antes de iniciar a atividade, balançando os braços e pernas, e não esqueça de fazer um alongamento suave;

2) Faça alguma limpeza simples em casa ou cuide do jardim, por exemplo. Ambos servem como treinos físicos;

3) Considere a possibilidade de fazer yoga ou tai chi chuan. Apesar de não serem exercícios aeróbicos, eles fornecem sensação de bem-estar e ajudam a parte psicológica;

4) Se você estiver passando por tratamento radioterápico, a natação não é uma boa opção. A água pode te expor a bactérias e o cloro pode irritar a pele irradiada. Converse com seu oncologista;

5) Se você não tem energia para fazer 30 minutos cheios de uma caminhada, faça a atividade em intervalos de 10 minutos durante o dia. O importante é virar rotina.