Dia a Dia do Paciente / Efeitos Colaterais

Sergio Azman

Publicado em 25/08/2014

Revisado em 15/07/2019

O impacto emocional do câncer

“Se não fosse o câncer, eu já estaria morto”. A frase pode parecer um contrassenso, mas ilustra bem a experiência de José Walter da Costa, 65 anos, com a doença. Antes do diagnóstico, ele era dado a excessos. “Não fazia exercício, abusava na comida, no sal, sempre gostei de comer carne crua, de tomar muita cerveja. Sempre abusei”, conta. Além disso, foi tabagista por muitos anos, fumava 4 maços de cigarro por dia até um infarto, em 1996, quando parou de fumar.

Em 2007, sentiu fortes cólicas, foi ao médico, fez uma colonoscopia e descobriu um câncer de cólon. Quando soube do diagnóstico, perdeu o chão. Deixou a esposa em casa e foi dar uma volta, espairecer um pouco para assimilar aquela informação. “Para mim, o câncer era uma sentença de morte. Quando ouvi do médico que estava com câncer, já me senti sentenciado, com mais 4, 5 meses de vida.”

Realmente, a primeira coisa que vem à cabeça do paciente é que ele pode (ou vai) morrer da doença. “O momento em que você recebe o diagnóstico é o mais difícil, mais crucial. A grande maioria pensa que vai morrer”, explica Vera Bifulco, psico-oncologista do Instituto Paulista de Oncologia (IPC).

Ela afirma que esse pensamento pode gerar um isolamento, pois nenhum paciente quer ser visto com pena. “Como ainda existe enraizado o estigma de uma doença fatal, muitas vezes eles não querem ser pegos com olhares piedosos. Preferem não falar para que as pessoas não sintam pena”, diz. E o isolamento é relacionado não apenas ao estigma da própria doença, como também ao órgão afetado. “Imagina uma pessoa que fumou a vida inteira e tem um câncer de pulmão? As pessoas vão condenar.”

Cuidando das emoções

É natural que a notícia de uma doença como o câncer traga um impacto emocional importante. Não é possível afirmar, no entanto, que todos os pacientes entrem em depressão. O que acontece, em grande parte das vezes, é um estado depressivo, que é diferente. “A depressão como diagnóstico é diferente da depressão como  reação a um período em que se está sendo mais consumido por determinadas dificuldades”, explica Vera.

Procurar ajuda psicológica é o primeiro passo. O ser humano é composto de uma tríade – corpo, mente e espírito. Tudo o que acomete o físico tem sua repercussão no emocional e no espiritual. “Como psicóloga tenho que avaliar onde é que está essa falta de energia interior que faz brigar pela vida. Pode ser a criação, as vivências. Todo mundo é um pouco do que viveu no passado, êxitos, fracassos, lutas. O psico-oncologista é o profissional que deve ser procurado para investigar isso”. Assim como o médico investiga os sintomas para o diagnóstico de uma determinada doença, o psicólogo também faz uma anamnese, uma busca para tentar entender o porquê desse estado de pouca energia, de baixa auto-estima que o paciente pode apresentar e que não o faça lutar pela vida. “Eu só peço ajuda de um colega médico para intervir com medicamentos quando percebo que essa negação dificulta o início do tratamento. Caso contrário, a gente acompanha e isso tende a diminuir”.

O acompanhamento psicológico é importante pois é impossível um médico sozinho dar conta de todos os aspectos relacionados ao paciente oncológico.“O médico está preocupado em curar esse paciente. Se ele tem por exemplo questões emocionais pendentes na vida dele, não é o médico que vai dar cabo a isso. E essas questões podem interferir na adesão e na resposta clínica. A presença do psicólogo é fundamental”. O recado é que cuidar das emoções é tão importante quanto cuidar do físico. E não é só o paciente que sofre, mas a família também, que assume um duplo papel: é cuidadora e merecedora de cuidados. O luto antecipatório também acontece com a família, que pode se sentir ameaçada por uma possível morte desse ente querido.

Em primeiro lugar, o paciente não pode se ver como vítima do câncer, porque toda vítima se enfraquece. “Isso te deixa numa situação de menos valia”, explica. Além disso, Vera convida o paciente para ser um participante ativo do seu processo de tratamento e busca pela cura. “Se for otimista, se tiver uma fé elevada, vai em busca de alimentar essa espiritualidade”.

Outros fatores como uma boa alimentação, a prática de exercícios, manter a vida social, são coisas que agregam bem-estar e qualidade de vida. “De uma maneira ampla eu poderia dar esses conselhos. Mas cada caso é ímpar na sua singularidade. Por exemplo, uma pessoa que já tenha uma história com o câncer, perdeu parentes, não adianta só dizer essas coisas. Eu preciso fazer um resgate”.

Encarando o tratamento

Nem todos os pacientes precisam da mesma ajuda psicológica. “Cada caso é um caso. Existem pessoas que têm um nível de enfrentamento, de resiliência, muito grande”, explica Vera. É o caso de Walter. Ele conta que não assimilou a notícia de uma só vez, mas também não ficou se sentindo vítima, injustiçado. “Tinha uma vida super sedentária, exagerada em tudo. Se eu fosse falar ‘porque comigo?’, eu mesmo ia responder: ‘porque eu procurei’.

Walter chegou a ficar em estado depressivo, mas por pouco tempo. Contou com ajuda da psicóloga, e hoje amiga, Vera. “Ela sempre me direcionou para um caminho de mais aceitação, de saber passar por isso”. Foi quando tomou as rédeas da situação. “Se eu ficasse postergando aquilo ia ficar me mastigando, me corroendo. Então resolvi partir para o tratamento de uma vez. E a forma como encarei fez toda a diferença”, diz.

Vera concorda. Para ela, duas pessoas com o mesmo diagnóstico, com o mesmo protocolo, uma pode aderir melhor ao tratamento e ter uma resposta mais positiva, e a outra não. Uma pessoa mais negativa, pessimista, já está com o sistema imunológico rebaixado por conta da quimioterapia, isso vai interferir. “Eu sempre pergunto a nota da fé, de zero a dez. Aquela pessoa otimista, de bem com a vida, que tem um componente de fé muito grande, chega com o respaldo familiar, vai ter uma resposta clínica muito mais interessante e positiva do que aquele que vem sozinho, sem respaldo familiar, sem amigos, sem fé.”

Walter encarou o tratamento de frente. Não perdeu a fé nem o otimismo. Foi operado, e precisou receber doze sessões de quimioterapia. Por ser cardiopata, a quimioterapia causava danos no seu coração e acúmulo de água no pulmão. “Os piores momentos foram as sessões de quimioterapia. Quando tomava o remédio vinha o edema pulmonar, era internado. Cheguei a sair de lá de ambulância”, recorda.

Mesmo assim, não desistiu. Pelo contrário. A doença, literalmente, mudou sua vida. Para melhor. Sempre gostou de arte, tinha vontade de fazer teatro, literatura, mas não encontrava tempo para isso. “O câncer me fez enxergar a vida de outra forma e encontrar o tempo para realizar meus sonhos.”Escreveu um livro onde conta sua história (Trajetória, editora Manole), faz aulas de trompete, dança circular, teoria musical, teatro, coral, canta em grupo musical, participa de uma ONG. E ainda sobra tempo para curtir a companhia da mulher, três filhos e seis netos. “Para mim, o mais importante foi aprender a dar um valor todo especial à vida”, diz, mostrando que é possível superar e tirar lições importantes de um momento difícil como o tratamento do câncer.