Dia a Dia do Paciente / Efeitos Colaterais

Dra. Silvana Chedid Grieco, ginecologista e diretora da Chedid Grieco Medicina Reprodutiva. Formada pela Faculdade de Medicina da USP, fez Residência em Ginecologia e Obstetrícia no Hospital das Clínicas e especializou-se em Reprodução Humana e Endoscopia Ginecológica no Centro de Medicina Reprodutiva da Universidade Livre de Bruxelas na Bélgica.

Publicado em 03/10/2019

Revisado em 03/10/2019

Preservação da fertilidade em pacientes com câncer

Pacientes de câncer têm grandes possibilidades de superar a doença, mas também grande risco de perder a fertilidade durante o tratamento.

Mulher em pé segurando um teste de gravidez de farmácia.

 

• A especialista em Reprodução Humana, Dra Silvana Chedid, procura disseminar e democratizar a informação sobre os riscos de perder a fertilidade após quimioterapia, radioterapia e cirurgia oncológica.

A cura do câncer tem sido uma realidade quando a doença é detectada precocemente. Segundo o INCA (Instituto Nacional de Câncer), 80% dos pacientes poderão recuperar sua vida normal após tratamento. Com esta realidade otimista surge uma preocupação que ainda não recebe a devida importância, que é o risco de perder a fertilidade durante o tratamento de quimioterapia ou radioterapia. Quero democratizar esta informação e contar com o apoio dos oncologistas na orientação de seus pacientes homens e mulheres sobre a infertilidade após o câncer.

Quando uma pessoa tem câncer pensa somente em superar a doença, mas é preciso pensar na vida após o câncer, já que será a realidade para a maioria dos pacientes jovens. Em nossa clínica possuímos um projeto cujo objetivo é facilitar o acesso às pessoas que não têm condições ou mesmo não conhecem os efeitos colaterais do tratamento oncológico.

O que é a preservação da fertilidade?

Preservar a fertilidade dos homens consiste em congelar sêmen, algo que pode ser feito rapidamente e sem afetar o tratamento do câncer. O homem vem até a clínica, realiza a coleta do sêmen por masturbação e a amostra então é congelada e pode ficar muitos anos armazenada, sem perder a qualidade. Superada a doença, o homem que não consegue ter filhos de forma espontânea, poderá acudir à sua amostra de sêmen fértil e realizar o procedimento de ICSI (Injeção intracitoplasmática de espermatozóides) ou mesmo a inseminação intra uterina.

 

Veja também: Tratamento oncológico e infertilidade: Devo me preocupar?

 

No caso das mulheres existem várias alternativas e caberá ao oncologista, juntamente com o especialista em Reprodução Humana, sugerir a melhor em cada caso, sendo que nenhuma delas afeta a evolução do câncer. A técnica mais utilizada é a Vitrificação de óvulos (72% dos casos). O efeito tóxico ovariano provocado por drogas antineoplásicas é variável de acordo com a dose cumulativa e também com a idade da paciente, afetando principalmente pacientes mais velhas, provavelmente devido sua menor reserva ovariana. Estima-se que apenas 30% das pacientes jovens submetidas à quimioterapia retomem sua função ovariana, variando o tempo de retorno entre 06 e 48 meses.

A Vitrificação de óvulos permite que os óvulos maduros conseguidos após a estimulação ovariana sejam criopreservados (congelados) para utilização posterior, quando a paciente tiver a alta do oncologista, conservando a qualidade do momento da preservação. O processo de obtenção de óvulos para a Vitrificação envolve a indução da ovulação com o objetivo de se obter vários óvulos. A estimulação ovariana pode ser iniciada em qualquer fase do ciclo, não ocasionando atraso no início do tratamento oncológico. Para se obter a gravidez com os óvulos vitrificados é necessário realizar o procedimento de Fertilização in Vitro. O congelamento dos óvulos não compromete a qualidade dos mesmos e, quanto mais jovem for a mulher no momento do congelamento, melhor o prognóstico em termos de obtenção de gravidez após o descongelamento.

A criopreservação do córtex ovariano é outra técnica de preservação da fertilidade que têm conseguido diversos nascimentos a nível mundial. Esta técnica permitiria restabelecer a função ovariana, com o que, inclusive, a possibilidade de conseguir gestações espontâneas, além disso, ao ter níveis hormonais normais, se evita efeitos secundários próprios de uma menopausa precoce (osteoporose, calores, risco cardiovascular). O primeiro relato de transplante de tecido ovariano criopreservado data de 2000. Em 2004, foram gerados os primeiros embriões de tecido ovariano descongelado e auto-transplantado seis anos após o procedimento de criopreservação em uma paciente com câncer de mama. Subsequentemente, uma gestação espontânea foi relatada em uma paciente sobrevivente de um linfoma de Hodgkin. Outros nascimentos foram relatados usando as técnicas de reprodução assistida após auto-transplante de tecido ovariano criopreservado.

A transposição de ovários é outra técnica de preservação da fertilidade que consiste em afastar os ovários do campo de irradiação para evitar a exposição direta dos mesmos à radioterapia, e evitar assim o dano de ser atingido pelo campo de radiação.

Hoje, no Brasil, ainda não existe uma política pública para estes procedimentos. Alguns hospitais do SUS atendem pacientes, mas é um tema que precisa ser falado e entrar na agenda para que mais mulheres, mesmo após em tratamento, não percam o sonho de serem mães.