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Viviane Pereira

Publicado em 08/01/2020

Revisado em 08/01/2020

Brasil oferece vacina contra HPV, mas não atinge metas de vacinação

Brasil oferece vacina contra HPV que protege contra o câncer de colo de útero. Apesar de estar disponível no SUS, as metas de vacinação ainda não foram atingidas. 

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Se houvesse uma vacina que pudesse prevenir câncer, você tomaria? Apesar de a resposta parecer óbvia, um grande “sim” para evitar um tipo de tumor, não é o que está acontecendo na prática, no Brasil. “De todas as medidas preventivas contra o câncer, é a mais eficaz do mundo”, destaca o oncologista Fernando Maluf, um dos fundadores do Instituto Vencer o Câncer (IVOC), referindo-se à vacinação contra o HPV (papiloma vírus humano). O HPV é a principal causa do câncer de colo de útero, e também está relacionado a tumores de pênis, ânus, garganta, vulva e vagina. 

“Na maior parte das vezes o câncer de colo de útero está relacionado a uma infecção crônica pelo HPV, uma infecção que está disseminada em nossa população – cerca de 80% das mulheres tiveram ou terão algum contato com esse agente ao longo de sua vida sexual”, explica o oncologista João Navarro, integrante do Comitê Científico do IVOC.

Apesar desta vacina estar disponível gratuitamente desde 2014 no Programa Nacional de Imunizações do Ministério da Saúde em 36 mil postos de saúde pelo país, a meta de vacinar meninas de 9 a 14 anos e meninos de 11 a 14 anos está longe de ser alcançada, especialmente no que se refere à segunda dose, essencial para garantir a eficácia do procedimento. O Ministério da Saúde informa que até dezembro de 2018, 6,1 milhões de meninas completaram o esquema vacinal com a segunda dose, o que representa 51,8% da faixa etária definida. Com a primeira dose, foram vacinadas 7,4 milhões de meninas nesta mesma faixa (72,9% de cobertura). 

A vacinação para os meninos começou em 2017 e desde essa data foram vacinados 3,5 milhões com a primeira dose (49,2% do público-alvo) e 1,6 milhão com a segunda dose (22,5%), média ainda abaixo do esperado, que é de 80%. Para o Ministério, as coberturas mais baixas no sexo masculino podem refletir o menor tempo de inclusão deste público no calendário nacional de vacinação e menor percepção das famílias quanto a importância da vacina HPV nos homens, segundo alguns estudos. 

Problema de saúde pública

Dados do Instituto Nacional de Câncer (Inca) para o câncer de colo de útero de 2018 indicam que houve 16.370 casos e o número de mortes, em 2017, foi de 6.385.  Segundo informações da Organização Mundial da Saúde (OMS), em 2018 houve 570 mil novos casos no mundo e 311 mil mulheres morreram por esse tipo de tumor – 85% dessas mortes se deram em países de baixa e média renda. O câncer do colo do útero foi o quarto mais comum em mulheres em 2018, ficando atrás do câncer de mama (2,1 milhões de casos), câncer colorretal (0,8 milhões) e câncer de pulmão (0,7 milhões).

“O câncer de colo de útero é um problema de saúde pública. Na população feminina, é a terceira causa de câncer em geral no Brasil. Em países desenvolvidos em todo o mundo esse tumor é o terceiro entre os tumores ginecológicos, ficando atrás de câncer de ovário e de endométrio, por conta das medidas de prevenção já estabelecidas”, acrescenta Navarro. 

Janeiro foi escolhido como mês para conscientizar e disseminar informações sobre o câncer de colo de útero, campanha representada pelo laço verde piscina.

Vacinação deve erradicar tumor de colo de útero na Austrália

Como comparativo, Fenando Maluf cita o exemplo da Austrália, que começou a vacinação como medida de saúde pública em 2007: “A vacinação tornou a Austrália o país com menor incidência de câncer de colo de útero hoje.  A redução dos tumores relacionados ao HPV foi de 77% em um pouco mais de uma década do início da vacinação de meninos e meninas. Para se ter uma ideia, em 2028 na Austrália só quatro casos serão diagnosticados para cada 100 mil pessoas. Em 2066, haverá menos de um caso a cada 100 mil pessoas de diagnóstico de câncer relacionado ao HPV, particularmente de colo de útero”, explica Maluf. O oncologista aponta que a Austrália deve erradicar o câncer de colo de útero em uma ou duas décadas.

Cuidar para diagnosticar precocemente

Além da vacinação para prevenir a doença, outra medida importante quando o tema é câncer de colo de útero é o diagnóstico precoce. Maluf avisa que a mulher pode diagnosticar esse tumor precocemente com exames ginecológicos de rotina, como o papanicolau. “Enquanto não há sintomas ou eles são poucos, o tumor é menor e maior a chance de cura”. Quando há muitos sintomas, geralmente o tumor está em estágio mais avançado, exigindo mais tratamento.

Um dos desafios é conseguir logo o diagnóstico, pois muitas pacientes enfrentam dificuldades, como aconteceu com Camila Nascimento Siqueira. “Eu sentia dores e tinha muito sangramento; ficava correndo de hospital em hospital e nenhum médico descobria o que era, nem fazia exame. Falavam que era infecção de urina”.

Ela chegou a ficar internada por três dias em um hospital em Saquarema, no Rio de Janeiro, onde mora, no final de junho de 2019; tomou medicamentos e recebeu alta, voltando para casa sem saber o que tinha. Em uma das idas a médicos, o preventivo deu alterado, chegou a fazer biópsia em material recolhido do colo do útero, mas o resultado não apontou qualquer problema – e ela continuava com sangramento e dores. “Até que tive que ir para Rio Bonito. Cheguei lá com muita dor e sangramento e o médico logo me internou. Passou uma semana, o oncologista foi me ver e pediu outra biópsia”.

Por causa do seu quadro agravado, ficou um mês internada no hospital de Rio Bonito onde, conta, tomava morfina de 4 em 4 horas. “Nessa outra biópsia deu que eu tinha câncer de colo de útero e comecei o tratamento em Rio Bonito mesmo. Já fiz seis sessões de quimioterapia, 25 de radioterapia e estou esperando para marcarem as sessões de braquioterapia. A radioterapia eu fiz em Niterói. A braquioterapia só faz no Inca no Rio de Janeiro e estou na fila”. Depois, fará novos exames para saber se passará por cirurgia.

Apesar de ainda estar no meio do tratamento, sente-se renovada, sem dor nem sangramento. “Quando recebi o diagnóstico, abriu um buraco na minha frente; eu quase entrei em depressão. Só queria ficar em um quarto escuro chorando. Tive muito apoio do meu marido, irmãos, pais, de todo mundo”, recorda.  “Hoje aceito melhor, vou no psicólogo. Antes não podia nem falar a palavra câncer, que começava a chorar. Agora vejo as coisas de outra maneira”. 

Para Camila, conhecer outras pessoas com o mesmo diagnóstico ajudou muito a ver a doença de forma diferente. “Antes eu só pensava que ia morrer. Hoje, digo que vou viver”. A quem recebe o diagnóstico, ela aconselha a não abaixar a cabeça, enfrentar de frente, apoiar-se na família e não se entregar. “Tem que ser feliz”.

Tratamentos avançam

Fernando Maluf esclarece que o tratamento geralmente é cirúrgico e com os avanços da Medicina é possível fazer procedimentos para tentar preservar a fertilidade, já que muitas vezes esse tipo de câncer acomete mulheres jovens. Quando o tumor é bastante pequeno, podendo ser microscópico, o procedimento cirúrgico pode ser mininamente invasivo, tipo conização, com a retirada de uma pequena área. Por isso a importância do diagnóstico precoce. Há também a traquelectromia, que consiste na remoção do colo do útero.

“Quando a doença está mais avançada, o tratamento envolve radioterapia, em geral com quimioterapia. A condução dessas duas modalidades é mais curativa do que a radioterapia isolada”, diz Maluf. “Na doença que eventualmente apresenta-se com metástase ou que recorre, volta depois do tratamento cirúrgico e/ou radioterápico, o tratamento envolve, além de quimioterapia, drogas alvo dirigidas, como os antiogiogênicos (drogas que bloqueiam a formação de vaso do tumor, impedindo que chegue oxigênio e alimento). Na doença em que esses tratamentos não resolvem, em alguns lugares do mundo já houve aprovação de imunoterapia, que tem se mostrado eficaz em doença avançada e já refratária a outras linhas de tratamento”.