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4Press

Publicado em 16/01/2019

Revisado em 16/01/2019

Homem relata em livro a experiência de superar um tumor raro no universo masculino: o câncer de mama

Torso masculino.

Frequente em mulheres, o câncer de mama em homens é um dos mais raros da oncologia.

 

Uma das primeiras reações ao receber o diagnóstico sobre uma doença, como o câncer, é buscar informações sobre ela. Difícil é quando você procura na internet e não encontra quase nada. Foi o que aconteceu com o jornalista Manoel Carlos Conti quando foi diagnosticado com um câncer de mama, em 2016. Apesar de ser um dos tumores mais frequentes nas mulheres, é mais raro nos homens – a estimativa é que 0,2% dos homens tenha câncer de mama no mundo.

Foi vencendo os obstáculos da jornada como paciente de câncer de mama que Conti decidiu registrar os passos do diagnóstico até o tratamento da doença em um diário, que transformou em um livro. A ideia é compartilhar com outros homens – e também mulheres, já que detalha sua experiência com os exames, quimioterapia, radioterapia – e ajudar a preencher a lacuna da falta de informação. Além de informativo, como cabe ao trabalho de um jornalista, a obra conta com o humor de quem também fez artes plásticas, especializou-se em quadrinhos e deu aulas de desenho por 30 anos. “Sou bem-humorado”, avisa.

Algumas dessas pérolas de leveza estão entre os capítulos, contando sobre cicatrizes que ele adquiriu na infância e adolescência e reapareceram em sua pele durante o tratamento. Por isso o nome do livro: Cicatrizes de uma vida – meu convívio amigável com um câncer de mama. “A pele fica muito fina. Apareceram cicatrizes que eu nem lembrava que tinha. Quando eu era criança, jogava futebol no gol: voltaram diversas marcas de corte cicatrizados. Até um que fiz cortando cana com um facão na fazenda de um amigo. Essa cicatriz tinha sumido”. Conti diz que as cicatrizes reapareceram e estão até hoje.

 

Como ganhar na loteria – só que ao contrário

 

Como o câncer de mama é mais raro em homens e não são feitos exames de mamografia no público masculino, pode ser mais difícil diagnosticar precocemente. Conti tinha uma pequena bolinha entre a mama direita e a axila havia bastante tempo e não provocava nada. Ele chegou a ir ao médico, que disse ser uma bolinha de gordura com a qual ele não precisaria se preocupar.

Até uma noite fria de julho de 2016, quando ele vestiu uma blusa de lã para dormir. “À noite, comecei a sentir beliscadas no local, como se tivesse um furúnculo”, recorda. Com o incômodo e a dor, levantou-se no meio da madrugada e foi para a sala, seguido pela esposa, que é médica. Marcaram de procurar um especialista para fazer exames. “Só de ver e tocar ele avisou que havia alguma coisa ali, inclusive na axila”. O mastologista afirmou que seria preciso tirar e assim que fez a punção já deixou a cirurgia marcada para o dia 22 de outubro.

Com o resultado dos diversos exames solicitados em mãos, Conti voltou ao especialista e descobriu o tumor. “O médico disse: ‘é o que a gente não queria – câncer maligno e espalhou da mama para os gânglios da axila. Teremos que fazer esvaziamento total’”.
Nesse momento ele começou a procurar informações, sem grandes resultados. “Eu cheguei a participar de fóruns de hospitais e só havia eu de homem. O médico disse que eu ganhei na loteria, só que ao contrário”.
Dos 57 gânglios retirados da axila, 35 estavam infectados. Vieram então as 16 sessões de quimioterapia, além das de radioterapia e Conti sofria novamente com a falta de saber como eram as reações no organismo masculino, quais as diferenças do que ele lia sobre o câncer de mama nas mulheres. “Eu vi muitos relatos sobre enjoo, mas eu não tive no início, por exemplo. Comecei a quimio em 16 de dezembro e fiz a ceia de Natal”.

Ele sentia cansaço e febre que, acabou descobrindo depois, era provocada por uma inflamação como consequência de uma pedra de quase 2 centímetros no ureter. “Sempre que eu fazia a sessão tinha que ir ao pronto socorro tomar antibiótico e tratar infecção urinária”.

A parte mais difícil foi parar o tratamento para estourar a pedra, tomar 30 dias de antibiótico forte. “Minha língua parecia uma lixa e tinha manchas por todo o corpo”, recorda. “Todo mundo fala que a quimioterapia branca é melhor, mas para mim foi pior. Tive muito enjoo e comia coisas estranhas como feijão gelado, misturava feijão com frutas”.

Depois veio o obstáculo de conseguir que o plano de saúde pagasse pela radioterapia que a médica indicou, direcionada ao local. “Com a radio fiquei bem; muitas vezes eu ia até sozinho, de metrô”. Com o petscan não indicando mais nada, Conti faz acompanhamento com medicamento e se recupera dos efeitos colaterais do tratamento.

“Durante esse tempo fui escrevendo dia a dia o que era para ser feito, todos os exames, as partes engraçadas. Queria colocar tudo na internet para que outros homens que passarem por isso encontrem informações”.

No livro ele conta não apenas os desafios físicos, mas também os emocionais: “Durante o processo senti duas dores fortes: uma no dia da punção – acho que a anestesia não pegou direito, parecia uma facada -, outra quando percebi que muitos amigos, ou pessoas que a gente pensa que é amigo, afastaram-se”.

Em compensação ele descobriu amizade em pessoas que nem imaginava, novos amigos que se mostraram solidários, perguntavam como ele estava, davam dicas. E é justamente para dividir as dicas que acumulou vivenciando essa experiência que o jornalista disponibiliza a obra para quem quiser ler.

Clique aqui para acessar o livro.