Câncer / Notícias

Viviane Pereira

Publicado em 02/05/2019

Revisado em 21/06/2019

O desafio de ser mãe superando um câncer na gestação

Pacientes e profissionais de saúde enfrentam juntos a batalha para vencer a doença que provoca emoções tão opostas à alegria de gerar uma vida.

Lyana Cabral, paciente de câncer de mama, grávida e com cabeça raspada.

 

“Eu planejei muita coisa: queria muito um parto natural, humanizado; queria amamentar… Por conta da doença, não pude realizar”. O desabafo de Lyana Cabral, de 30 anos, revela frustrações comuns a mulheres que vivenciam o difícil desafio de enfrentar um tumor durante a gravidez.

Quando conta sua história, Lyana diz que chegou a entrar em trabalho de parto, mas como passou mal, foi para a cesárea. E lembra que a médica avisou que seria cesariana. “Não pude amamentar porque ainda não tinha retirado a mama. Não sabia se havia doença em mim. Como o câncer foi hormonal, amamentar poderia aumentar o que tinha em mim”. Não poder amamentar causou “piração” e ela chegou a pensar que a filha não a reconheceria como mãe. “Não foi fácil; na época da mastectomia eu não podia pegar no colo, fazer nada. Ficava de figurante”.

A doença foi descoberta quase ao mesmo tempo em que a gestação, aos três meses, em abril de 2017. Lyana tinha um caroço no seio que sempre aparecia na época de menstruar e depois sumia. Na gravidez, não sumiu. A médica pediu exames e mesmo com ultrassom e duas biópsias, os resultados não eram 100% conclusivos, por causa da produção do leite que atrapalhava o diagnóstico preciso. Mesmo assim a mastologista avisou que não tinha como ser outra coisa: era um tumor e, se desse metástase, seria difícil tratar. “Enquanto a médica falava, eu parecia estar em um universo paralelo. Só conseguia pensar: ‘Isso não existe. Gestação e câncer – não tem como as duas coisas existirem’”.

Apesar do choque, o diagnóstico foi um alívio para quem fazia diversos exames, sem definição. “Enquanto não sabia, não podia tratar aquilo que crescia em mim. Foi um alívio saber o que tinha e que havia tratamento”. Começou a quimioterapia em julho e fez quatro sessões durante a gravidez. Maria nasceu em 14 de outubro. O tratamento continuou com mais quimioterapia, cirurgia para mastectomia total, radioterapia, terapia alvo e seguirá com hormonioterapia.

Lyana grávida deitada em ensaio fotográfico.

Enquanto o físico era cuidado, a cabeça continuava confusa: “Eu me sentia uma ET. Pensava que era a única pessoa grávida com câncer”. Procurando na internet, achou diversos artigos acadêmicos, mas não encontrou pessoas que tivessem passado por uma situação semelhante, para trocar experiências. Surgiu então a inspiração para a criação da página nas redes sociais ‘Câncer gestacional tem cura’, um espaço para trocas e acolhimento. “Além de ser uma ferramenta para eu externalizar o que estava sentindo, a forma como as pessoas me incentivavam nos comentários me deu forças. Acabei encontrando outras mamães que passaram ou estavam passando pela situação”. Hoje elas formam uma rede de apoio para outras pacientes. “Nós damos força umas para as outras”.

Depois que tudo passou, após o parto, ela sentiu que todas as emoções guardadas surgiram, especialmente a angústia em relação à maternidade, por ter a sensação de não poder exercer plenamente o papel de mãe. “Comecei a fazer terapia para me reencontrar nesse processo. Descobrir quem sou eu depois do câncer, de ser mãe, eu como mulher, esposa, professora. Minha jornada de autodescoberta”.

Lyana grávida usando lenço e tampando seios com as mãos em ensaio fotográfico.

Pelas dificuldades que esse duplo processo acarreta, o psicólogo da área oncológica e hematológica da Beneficência Portuguesa de São Paulo, Caio Henrique Vianna Baptista, avisa que quando se trata uma pessoa que está gerando outra é preciso tomar muito cuidado com as histórias, as referências, com o real desejo da paciente e o que o tratamento pode proporcionar tanto para o bebê quanto para a família e a mulher que vivencia a gravidez junto com a doença. “Trabalhamos muito os desejos dessa mãe e também as questões reais, o que é inerente ao tratamento, além das fantasias que vão de encontro ao tratamento oncológico em si. No caso da gestação, há muita coisa em jogo, desde as perdas que a própria doença causa no corpo: a esterilidade, perda de cabelo, as emoções… Muitas perdas podem ocorrer pelo caminho e com a gravidez essa sensação costuma ser potencializada”.

Ele lembra dos casos limites em que a mulher pode ter que escolher entre a própria vida e a do filho, quando a doença avança muito e coloca em risco a vida da gestante. “É realmente algo muito difícil; entram questões ligadas à espiritualidade, às convicções que essa mulher formou durante a vida, sobre o que é ser mãe para ela”. Caio explica que o tratamento psicológico na gravidez gestacional deve conversar com a linguagem médica em alguns sentidos, considerando o risco de vida da mãe, os riscos que o bebê corre. “Às vezes a mulher quer ter esse bebê, mesmo que precise sacrificar a própria vida, mas há situações em que é inviável. O tratamento psicológico vai ajudar a desmistificar o que é fantasia e ver o diagnóstico e prognóstico real. Muitas vezes entramos em questões bioéticas que são muito importantes”.

Um grande desafio, explica o psicólogo, reside no fato de a mulher já começar a se sentir mãe quando descobre a gravidez. “Muitas questões do psiquismo podem mudar. Quando falamos de experiências maternas, tratamos de experiências extremamente profundas. Tudo vai depender de cada caso, como uma digital, única. Cada mulher tem uma vivência e estar grávida é diferente para cada uma. Precisamos ter cuidado em todos esses sentidos e cada história merece uma atenção diferenciada”.

Lyana Cabral com sua filha no colo, uma olhando para a outra e sorrindo.

 

Câncer gestacional tem cura

O nome da página criada por Lyana nas redes sociais representa bem a boa notícia que os avanços da medicina trouxeram para aliviar as dificuldades nessa situação de emoções tão contrastantes. Um momento, como lembra a ginecologista, obstetra e mastologista Marianne Pinotti, que atua na Beneficência Portuguesa de São Paulo, em que só se pensa em coisas boas e a expectativa é viver 100% de alegria: “Lidar com duas emoções tão opostas é difícil. Por isso é fundamental que a paciente tenha um acolhimento motivacional e multidisciplinar, para se sentir segura”.

Marianne avisa que o estigma de que o câncer de gravidez não teria cura deve-se à realidade que se vivia antigamente. “Na década de 1930, as mulheres com câncer de mama na gestação tinham, de acordo com Haagensen e Stout, uma taxa de sobrevivência de 8.2% em 5 anos. Já nos dias de hoje, dados do pesquisador Petrek mostram sobrevida de 82% em 5 anos para aquelas gestantes com axila negativa”, explica a médica. E complementa: “Hoje em dia, quando o diagnóstico é precoce as taxas de sobrevivência são semelhantes às de mulheres que não estão grávidas. Infelizmente, em muitos casos o diagnóstico não é precoce e a sobrevida é menor”.

Um dos desafios para o diagnóstico precoce do câncer de mama na gestação acontece justamente pelo momento de tanta felicidade, em que nem a paciente e muitas vezes nem o profissional de saúde que a acompanha pensa em doença. A médica afirma que é preciso seguir durante a gestação com exames clínicos de palpação nas mamas e quando há fatores de risco, como histórico familiar, fazer ultrassom. “Devemos também considerar que a incidência do câncer de mama é maior em mulheres a partir de 40 anos – como as mulheres têm filhos mais tarde, podem engravidar em idade de risco para esse tumor”, destaca.

O tratamento da paciente gestante tem peculiaridades e exige cuidados especiais. Marianne comenta que os protocolos de tratamento de câncer de mama na gravidez não são tão definidos como para pacientes sem gestação e a decisão do prognóstico dependerá da idade da paciente e do momento da gravidez em que houve o diagnóstico.

“Se a gestação já está no final, é mais simples – o tratamento poderá ser semelhante ao que faria se não estivesse grávida. Se está no início, é mais complexo e será preciso definir etapas de acordo com a gravidez”, explica. “Radioterapia é proibida em gestante: se for necessária, precisaremos adiar para após o parto; a hormonioterapia é feita depois que o bebê nasce. Também se evita, na medida do possível, quimioterapia e cirurgia, especialmente no primeiro trimestre, pelo risco de causar má formação fetal. O objetivo é tentar o mínimo de medicamento possível”.

Por isso, a reconstrução mamária, por exemplo, que preferencialmente é feita junto com a retirada da mama, nesses casos é adiada para que a cirurgia necessite de menos tempo, exigindo o mínimo de anestésico. “É preciso bom senso e analisar cada caso. A paciente participa das decisões – é diferente de colocar o tratamento para uma mulher para quem a única prioridade é se tratar. Muitas vezes a paciente nem está pensando na doença, apenas em sua gravidez. Temos que propor um esquema que permita tratar e proteja a gravidez. Em outros lugares do mundo o serviço de saúde oferece para a mulher a possibilidade de continuar ou interromper a gestação nesses casos. No Brasil, a legislação não permite”.

Lyana com sua filha apoiada na perna com cicatriz da mastectomia à mostra.

Felizmente, avisa a médica, houve grande melhora em relação ao que havia há 20 anos, com serviços especializados em câncer na gravidez, que divulgam orientações. E pesquisas mostram que é possível garantir a saúde da mãe e dos filhos. “Há um estudo feito por Nulman, publicado em 2001, que seguiu por 19 anos 84 crianças cujas mães fizeram quimioterapia e passaram por cirurgia durante a gravidez. A conclusão foi tranquilizadora: as crianças tiveram desenvolvimento físico e intelectual normal em comparação com outras”, cita a mastologista. “O que acontece, às vezes, é o crescimento um pouco menor do bebê. A taxa de bebês com baixo peso e prematuros é um pouco maior em mulheres que fizerem quimioterapia e passaram por cirurgia também”.

Marianne comemora os avanços, comentando que o diagnóstico de um câncer na gravidez é um momento de angústia tanto para a mulher e a família quanto para a equipe médica que vai tratar a paciente: “Pega a gente no coração”.

E se o coração de Lyana ficou apertado durante boa parte da gravidez e um bom tempo depois, até ela conseguir superar o que chama de autossabotagem e encontrar outras formas de se reconhecer mãe mesmo sem amamentar, hoje ele sorri porque sabe que a filha vai reconhecê-la pelo carinho, por todo o amor que deposita nela desde o início, de onde tirava suas forças nos momentos mais difíceis da doença. “Antes eu olhava para a minha filha e pedia desculpas por ter feito ela passar por isso, por não ter amamentado, por tanta coisa…”.

Agora Lyana espera ansiosa para comemorar seu segundo Dia das Mães com a Maria nos braços, com o sentimento que lhe invadiu: gratidão. “Todos os dias eu olho para ela e agradeço a Deus. Ela é perfeita, não tem sequelas e eu estou bem de saúde”.