Câncer / Notícias

Viviane Pereira

Publicado em 26/10/2018

Revisado em 26/10/2018

Outubro Rosa: Cuidadores também precisam de cuidados

Filha envolvendo a mãe com um braço, uma olhando para a outra.

 

“Não é fácil, mas não é impossível. Precisa ter muita força de vontade, fé e foco”. Assim Maria Carolina Cassoni de Almeida Prado, 48 anos, resume como enfrenta o tratamento do câncer de mama. A notícia, recebida em junho deste ano, chegou depois de outros dois diagnósticos da doença na família: o marido dela – de quem é cuidadora – trata um tumor no rim há 10 anos. A mãe de Maria Carolina teve câncer de mama há três anos. “Meu médico não descarta o fator emocional sobre a doença. Nesses últimos tempos, fiquei correndo atrás de um e de outro. Acho que a tristeza a e a preocupação têm um peso importante no meu diagnóstico”, avalia.

A saúde dos cuidadores pode ser afetada pelas exigências que a tarefa impõe. A pesquisa Embracing Carers entrevistou 3.516 cuidadores não remunerados/não profissionalizados com idade entre 18 e 75 anos e comprovou este impacto. Entre os resultados, conclui que quase metade (47%) dos participantes tem sentimentos de depressão e 57% sentem que precisam de cuidados ou apoio médico para uma doença mental como depressão, ansiedade ou estresse. Mais da metade (55%) sente que sua saúde ficou debilitada por causa da atuação como cuidador e 54% declararam não ter tempo para suas consultas médicas.

No caso de Carolina, foram anos de desgaste físico e emocional como cuidadora de um paciente oncológico. Mas foi justamente o fato de conviver com o câncer do marido que ajudou a diagnosticar a sua doença precocemente. Ao fazer o autoexame, sentiu um caroço e foi a vários médicos até receber a confirmação do câncer de mama. “Descobri por insistência. Depois do câncer da minha mãe, passava por exames a cada seis meses. Muitas mulheres não se cuidam porque não têm o problema dentro de casa. Por tudo que vivenciei, temo muito”.

Nos 10 anos de tratamento do marido, já foram muitos altos e baixos, sustos e recuperações, e Carolina ressalta que a principal lição aprendida é a força de vontade de querer viver. Diariamente faz uma hora de ginástica e tenta se alimentar bem. “Não fiquei na cama nenhum dia. Se sinto dores no corpo, vou para a esteira e tudo some. Apesar dos pesares, a vida vale a pena e a gente é feliz”, define.

Fé e otimismo também foram a receita de Ida Soares dos Santos, 85 anos, para cuidar da neta Michele, de 27 anos, que teve câncer de mama. Ida deixou a casa e o marido no Rio de Janeiro, onde vive, e se mudou para São Paulo, onde ficou por um ano. Ela sabia que o ambiente da casa da paciente tinha que ser uma fortaleza, assim como ela, que não poderia ter dúvidas de que a neta ficaria curada. “Pedi a Deus forças para não chorar na frente dela. E não chorei. Não se pode pensar negativamente, porque a ciência está muito avançada. Temos que ter fé a vida toda”.
Para permanecer forte, não abandonou seu próprio cuidado e manteve sua rotina de alimentação cuidadosa. Ida encontrava na cozinha uma maneira de também cuidar da neta. “Eu fazia os pratos que ela gosta. Isso tudo é amor. O amor transforma”.

O grande desafio, acredita, era ver a neta sofrendo e pouco poder fazer. Apesar de triste pela doença, sentiu-se feliz pela oportunidade de ajudar. “Não é toda avó que pode cuidar de uma neta. Senti que Deus me deixou até a data de hoje para cuidar dela”. A quem precisa cuidar de um paciente, Ida aconselha: “Nunca pense negativamente”.

Dicas para que o cuidador não vire paciente

O oncologista clínico Thiago Jorge, colaborador do Instituto Vencer o Câncer, explica que a dificuldade de dividir as tarefas com outros parentes ou pedir ajuda a profissionais é um dos motivos do desgaste que o cuidador sofre. “É também uma questão cultural. Em outros países é mais comum utilizar a ajuda profissional, contratar serviço de enfermagem, por exemplo”.

Ele esclarece que doenças crônicas, como o câncer, geram impacto significativo sobre quem está ao lado do paciente, principalmente se este perde independência. Segundo o médico, é comum ver familiares que se estabelecem como cuidadores abandonarem o trabalho, deixarem de fazer suas atividades e renunciarem aos cuidados da própria saúde. “Deixam de fazer exames, esquecem os remédios. Muitas vezes os cuidadores descobrem que estão com alguma doença já em situação grave, porque não tiveram tempo de fazer prevenção”.

O oncologista destaca que as doenças mais comuns nesses casos são as que têm relação com os hábitos de vida. É comum o cuidador apresentar alterações cardiovasculares e de diabetes. Na maioria dos casos, eles abandonam a prática de atividade física e não se alimentam adequadamente. “Costumamos ver descompensação de diabetes, pressão alta, sobrepeso e obesidade, depressão e transtorno de humor, porque é uma situação de estresse constante”. Para que cuidadores não virem também pacientes, Thiago Jorge lista algumas orientações:

– Cuidar de si mesmo é também uma forma de cuidar do paciente;
– Não esqueça que, por ser o pilar do paciente, é preciso manter-se forte;
– Tente dividir as tarefas, não assuma tudo para si;
– Se for possível, utilize ajuda profissional de cuidadores especializados;
– Tente procurar ajuda psicológica e fazer parte de grupo de apoio a cuidadores;
– Lembre-se que quanto melhor você estiver, maior harmonia haverá em casa e na família. Isso irá refletir no bem-estar do paciente.