Câncer / Notícias

Viviane Pereira

Publicado em 14/12/2018

Revisado em 14/12/2018

De olho em nosso maior órgão: a pele

Vista de cima de uma mulher com chapéu sentada na borda de uma piscina.

Nossa proteção ao ambiente externo está exposta a vários males e um dos mais graves é a radiação ultravioleta. Ficar atento ajuda a descobrir precocemente doenças da pele.

“A pele é nosso maior órgão e a proteção direta contra o ambiente externo”, alerta o dermatologista Elimar Gomes, coordenador do grupo de Dermatologia do Centro Oncológico da Beneficência Portuguesa de São Paulo. O médico lembra que ela nos protege contra danos do ambiente. “Um dano grave, que a pele absorve, é a radiação ultravioleta do sol. A exposição a essa radiação facilita o envelhecimento da pele e provoca manchas. Além disso, a radiação ultravioleta promove mutações do DNA das células da pele, que levam ao câncer de pele”.

Por esses riscos, a recomendação é sempre utilizar protetor solar fator acima de 30 quando vai se expor ao sol. Mas esse não é o único cuidado que a pele necessita para se manter saudável.

Gomes destaca que a poluição é outro vilão que prejudica a pele – especialmente em locais muito poluídos, como a cidade de São Paulo: “A poluição facilita o envelhecimento, deixa os poros dilatados e a aparência da pele não fica saudável”. É importante entender que a pele exige cuidados e até durante o banho podemos prejudicá-la, com dois fatores: uso exagerado de sabonetes e água muito quente, que ressecam e prejudicam a proteção da pele. “A pele tem um microbioma natural, microorganismos que moram em nossa pele, e fazem parte da sua simbiose. Essa interação colabora com a manutenção de uma pele saudável”.

O dermatologista avisa que não cuidar desses males que ameaçam a pele deixam a pessoa mais suscetível a desenvolver dermatites. Outro alerta feito pelo médico: crianças com pele protegida e hidratada desde cedo têm menor chance de desenvolver dermatite na vida adulta.

Manter a pele hidratada, aliás, é importante para evitar reações alérgicas e para pessoas que estão em tratamento de câncer, avisa Gomes. “Os tratamentos, seja quimioterapia, imunoterapia ou outros, provocam perda de qualidade da pele, deixando-a mais sensível. Se ela está hidratada, tem menos chance de desenvolver qualquer reação”.

Um dos fatores que tem relação direta com o desenvolvimento de tumores é a imunidade. “Um paciente transplantado, por exemplo, terá maior risco de desenvolver câncer de pele do que alguém não transplantado, porque nesses casos a imunidade não está preservada adequadamente. Quem passa por transplante ou apresenta outras causas de imunossupressão tem maior chance de desenvolver tumores”. Por isso, ele avisa que melhorar a imunidade é também uma forma de diminuir a chance de ter câncer de pele. “Também temos comprovado que a reposição via oral de nicotinamida – derivado da vitamina B3 – melhora a imunidade e reduz a chance de câncer de pele”.

Câncer de pele: olhar atento para o diagnóstico

O diagnóstico precoce do câncer de pele é essencial para aumentar a chance de cura. Rafael Schmerling, oncologista clínico da Beneficência Portuguesa de São Paulo e integrante do Comitê Científico do Instituto Vencer o Câncer, avisa que para isso é importante dar atenção às lesões que apareçam na pele: feridas que não curam, pintas que crescem rapidamente ou de aspecto suspeito.

Schmerling comenta que além da atenção que as pessoas devem dar à pele, os médicos dermatologistas podem ajudar com ferramentas, como a dermatoscopia – uma espécie de lupa de contato que facilita o diagnóstico. Tem também a dermatoscopia digital, que acopla uma câmera digital a essa lente e registra em um computador. “Existe ainda o mapeamento digital, um mapeamento fotográfico não só das pintas, mas do corpo inteiro, acompanhando a evolução”.

Profissionais que estão em contato com a pele podem ser importantes aliados para o diagnóstico precoce, como tatuadores e body piercers– além de ajudar a identificar sinais suspeitos, eles precisam saber os locais em que podem fazer intervenções. Ronaldo Sampaio Brito, body piercer, diretor Presidente da Associação dos Tatuadores e Perfuradores do Brasil (ATPB) explica que há anos existe um trabalho de conscientização sobre os cuidados necessários com a pele na atividade profissional. “Muitas pessoas procuram tatuadores para cobrir manchas ou pintas. É necessário, antes de fazer a cobertura, ter noção do que pode ou não ser coberto”.

Brito, que trabalha há 21 anos com piercing, conta que às vezes a pessoa tem pintas próximas aos locais onde será feita a intervenção na pele e é preciso avaliar com cuidado. Ele explica que para ampliar o conhecimento, os profissionais participam de cursos de fisiologia e biossegurança, entre outros. “Eu fiz curso, por exemplo, na Associação Latino Americana de pesquisas em odontologia e saúde (Alapos). É preciso conhecer bem a pele antes de fazer uma invasão, seja por piercing ou tatuagem. Além disso, quando vemos algo estranho, como uma ferida que não cicatriza, sugerimos buscar uma avaliação médica”. A ATPB é parceira da Escola Body Art Lado B, que atua com o Juntos contra o melanoma, iniciativa organizada pelo Grupo Brasileiro de Melanoma e promove divulgação de informações sobre a doença para profissionais que trabalham diretamente com a pele.

Foi em um workshop da entidade que o tatuador Eduardo Theodoro Mendes, que dá aulas na escola, descobriu que não fazer tatuagem em cima de uma pinta é importante não apenas para evitar complicar um possível melanoma. “Antes, achava que precisava tomar cuidado em casos mais extremos, com pintas muito diferentes. Descobri que qualquer uma pode virar melanoma e cobrir uma pinta pode impedir um diagnóstico precoce”, avisa. Ele trabalha com tatuagem desde 1986 e sempre teve o cuidado de não cobrir qualquer pinta. “O diagnóstico parte inicialmente da ação visual do médico e se fizer tatuagem em cima, elimina essa possibilidade”.

Mendes conta que circunda as pintas e se há muitas, avalia com o cliente se vale a pena tatuar naquele lugar. “Eu explico porque não vou cobrir aquela área, para que a pessoa fique orientada, além de lembrar que observe as pintas. Compartilho esse aprendizado também com meus alunos, na aula de biossegurança”. Uma das dicas do tatuador aos clientes e alunos é que a pessoa com muitas pintas faça um mapeamento, tirando fotos e acompanhando anualmente o desenvolvimento. “Sugiro que vejam se está aumentando, alterando coloração”.

Para exemplificar as pintas que merecem atenção especial, Rafael Schmerling cita a regra do ABCDE:

A (Assimetria) – se traçar uma linha imaginária no meio da pinta e notar que os lados são diferentes, precisa ser avaliada.
B (Borda) – quando as bordas são irregulares, isso denota um risco maior.
C (Cores) – pintas com várias cores têm uma chance maior de ser melanoma.
D (Diâmetro) – qualquer pinta que tenha mais de meio centímetro tem risco maior de se relacionar ao melanoma.
E (Evolução) – pintas que crescem, seja em tamanho ou na forma de nódulo, precisam ser avaliadas. O risco de ser melanoma é bem maior.