Câncer / Notícias

Viviane Pereira

Publicado em 07/11/2019

Revisado em 08/11/2019

Câncer de próstata: diagnóstico precoce aumenta chances de cura e diminui efeitos colaterais

Avanços na Medicina possibilitam novas opções de tratamento até mesmo para casos avançados. Confira também mitos e verdades sobre a doença.

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“Quem procura acha, mas quem acha trata e quanto menor o tumor, não só é mais curável, quanto os efeitos colaterais são muito menores”. O aviso do oncologista Fernando Maluf, um dos fundadores do Instituto Vencer o Câncer, reflete as importantes conquistas que a Medicina fez em relação ao câncer de próstata nos últimos 10 a 15 anos para os tratamentos, mesmo para os casos mais avançados.

Essas informações são importantes, especialmente considerando o universo de homens que podem ser diagnosticados com o tumor: segundo estimativas do Instituto Nacional de Câncer (Inca), o Brasil deve registrar quase 69 mil casos da doença em 2019, o que representa mais de 10% de todos os tumores por ano no país. “No curso da vida de cada seis brasileiros, um vai apresentar a doença. São mais de 2 milhões de casos por ano ao redor do mundo”, destaca Maluf.

O oncologista explica que o câncer de próstata é uma doença que acomete predominantemente homens acima de 50 anos de idade, particularmente acima de 60 anos de idade, mas existem exceções: quem tem histórico familiar (pais, irmãos), negros e homens com síndrome genética. Ele explica que, de forma geral, os homens devem fazer exames anualmente com urologista a partir dos 50 anos – nos casos das exceções, esse rastreamento anual deve ter início a partir dos 40 – 45 anos.

 

Sintomas x diagnóstico precoce

Uma das principais dúvidas sobre o câncer de próstata é sobre os sintomas que ele provoca. “O ideal é que não tenham sintomas, porque quando eles aparecem é porque o volume da doença é mais preocupante e está em estágio mais avançado. Por isso é essencial fazer o rastreamento, para encontrar o tumor pequeno, confinado à glândula e altamente curável”, ressalta Maluf.

Os exames de rastreamento para o diagnóstico precoce são o toque retal, feito pelo urologista, e o exame de sangue do marcador PSA, que se complementam. O oncologista esclarece que esses exames não fazem o diagnóstico, mas levantam uma suspeita que será definida através da biópsia. “O PSA aumentado pode indicar câncer de próstata; mas ele também pode estar aumentado em outras situações benignas, como aumento benigno da próstata (hiperplasia benigna), nas prostatites (infecções ou inflamações da próstata) e eventualmente algum tipo de trauma”.

Quando o câncer de próstata está em estágio mais avançado, pode apresentar como sintomas piora da força do jato urinário, dificuldade para urinar, necessidade de urinar muitas vezes em um período de tempo curto, acordar a noite para urinar, até sangramento e uma certa obstrução do canal. “Quando a doença passa para os gânglios, o paciente pode ter inchaço das pernas. Quando passa para os ossos, que é o local que mais a doença costuma caminhar com metástase, pode apresentar dores ósseas, fraturas, compressão dos nervos que saem da coluna ou até do cordão medular central”, diz Maluf.

 

Prevenção

As questões sobre prevenção e fatores de risco também geram muitas dúvidas. Pesquisa realizada em parceria pelo Movimento Todos Juntos Contra o Câncer e a HSR Health revela que 85% dos homens brasileiros citam a prevenção do câncer de próstata como um tema a ser mais divulgado. O levantamento ouviu 500 pessoas, de 18 a 65 anos, de todas as classes sociais. Os resultados apontam que 81% da população acham que o histórico familiar é a principal condição relacionada ao câncer de próstata. Apesar deste ser um fator de risco para a doença, o mais importante é a idade.

O trabalho também demonstrou que as pessoas têm a percepção de que o câncer de mama faz mais vítimas (61%) quando comparado ao câncer de próstata (39%) – mas os números de óbitos reais são praticamente semelhantes. Em 2017 houve no Brasil 16.927 mortes por câncer de mama (52%) e 15.391 mortes por câncer de próstata (48%).

Há dúvidas também sobre a possiblidade de uma dieta inadequada poder contribuir para o desenvolvimento do câncer de próstata. Maluf avisa que sim, a dieta pode influenciar, e cita os fatores de risco: idade, histórico familiar, homens da raça negra tem mais chance de ter câncer de próstata particularmente agressivo. “Sabemos também que são fatores de risco a obesidade, sedentarismo e dietas ricas em gordura, com quantidade importante de carne vermelha e carboidrato. A dieta é fator de risco importante”.

Para prevenir é fundamental manter o controle do peso, fazer exercício físico e ter uma dieta saudável.

 

Tratamento

Entre números e índices preocupantes, a boa notícia, lembra Fernando Maluf, são os avanços da Medicina que trazem não apenas novas formas de tratamento, mas até a possibilidade de seguimento com segurança para quem não precisa ser tratado e novas alternativas para quem tem doença avançada, o que não havia antes.

O médico explica que de cada 10 pacientes com câncer de próstata localizada, 3 a 4 não vão precisar de tratamento imediato – é a chamada observação vigilante. “São tumores geralmente pequenos, relativamente indolentes, com PSA baixo. Podemos observar com segurança esses pacientes durante a vida e talvez eles nem precisem ser tratados. Caso precisem no futuro, depois de muitos anos, poderão receber tratamento sem prejudicar as chances de cura”.

Para os que irão precisar de tratamento, os tradicionais são a cirurgia e a radioterapia, que também tiveram avanços, com a cirurgia assistida por robô e a radioterapia com intensidade modulada de feixe.

“Tem uma opção que vem aumentando de modo importante e ganhando espaço que é o HIFU (High Frequency Ultrassound)”, diz Maluf. HIFU é uma terapia baseada em som de alta frequência, com a introdução de um ultrassom transretal que emite ondas, convergindo as ondas em um ponto focal único onde ocorre um aumento da temperatura e um choque de células, que mata as células.

O oncologista chama atenção ainda para os avanços da Medicina para os tumores de próstata avançado. “Temos novas formas de tratamento antihormonais, temos drogas que emitem radiação para metástases ósseas. Há uma nova modalidade onde um fármaco com radiação se liga à proteína especifica do câncer de próstata com resultados interessantes a curto e médio prazo de seguimento. E também novas quimioterapias. Avançamos de modo importante para melhor controle, boas respostas e maior longevidade numa doença em que até 10, 15 anos atrás tinha pouquíssimas opões quando era mais avançada”.

 

Efeitos colaterais

Em qualquer tratamento de câncer os efeitos colaterais causam insegurança e apreensão. “Os percentuais existem, não é impossível ter toxicidade ou efeito colateral, mas a impressão é de que a comunidade superestima os efeitos colaterais, o que leva a um medo excessivo não só do tratamento, mas até de fazer diagnostico para não encontrar”, comenta Maluf.

Nos casos dos tumores na próstata, os efeitos colaterais que costumam provocar mais preocupação são a impotência sexual e a incontinência urinária.

O oncologista afirma que tanto a cirurgia quanto a radioterapia podem induzir a impotência sexual: nesse caso, os dados indicam que a cirurgia tem efeitos um pouco maiores do que a radioterapia e variam de 20 a 60%. Ele explica que essa grande variação nos índices se deve especialmente à idade em que o tumor costuma se desenvolver, principalmente acima de 50 anos, ou seja, pode acometer homens que já têm grau de impotência independentemente de cirurgia ou radioterapia, e que também podem ter hipertensão ou diabetes, que tem o risco de levar à impotência.

Quanto à incontinência urinária, os casos em que a cirurgia provoca esse efeito colateral persistentemente acontecem em menos de 7% a 10% dos pacientes. “A radioterapia não causa incontinência, mas pode provocar inflamação tanto do reto, que está atrás da próstata, quanto na bexiga, que fica na frente. Mas com a modernidade da radioterapia, a chance de inflamações graves é só de 3 a 5%”, conclui o médico.