Câncer / Notícias

Juliana Conte

Publicado em 05/04/2018

Revisado em 05/04/2018

Álcool não é o principal fator de risco para câncer de fígado

hepatite manicure

“Doutor, como eu fui ter cirrose se nunca bebi?”. Essa foi uma das primeiras perguntas que Ricardo Ferreira, 50 anos, fez a seu médico logo depois de saber que tinha um tumor no fígado. Quando falamos em câncer de fígado (carcinoma hepatocelular – CHC), muitas pessoas imediatamente o associam à cirrose, que de fato está intimamente ligada ao tumor. A questão é que a cirrose não é causada só pelo álcool. Exagerar na bebida, aliás, não é o principal fator para o surgimento do tumor de fígado.

Na América do Sul, as hepatites virais correspondem a quase 50% dos casos de tumores hepáticos. O álcool vem em segundo lugar (22%), seguido de doenças não alcoólicas, como a gordura no fígado (9%). Ao mesmo tempo, a ligação entre as infecções e o câncer é pouco conhecida no país. Pesquisa recente feita pelo Instituto Oncoguia, em parceria com a Bayer, mostra que quase 60% dos brasileiros desconhecem a associação entre o câncer hepático e as hepatites B e C.

Câncer sem álcool

Apesar de as hepatites serem transmitidas sexualmente e por instrumentos perfurocortantes contaminados, muitos pacientes adquiriram a doença por transmissão de mãe para filho, durante o parto, ou por transfusões sanguíneas realizadas antes de 93, quando não havia o controle sorológico adequado das bolsas de sangue. 

Ricardo Ferreira, citado no início da matéria, acredita que tenha contraído o vírus da hepatite por conta de alguma das tatuagens que fez. “Falar que tive hepatite e ainda cirrose era bem difícil, porque são doenças carregadas de preconceito. Sempre tive uma vida regrada, surfava, andava de skate”, afirma.

Ele conseguiu curar a hepatite C com um tratamento que durou cerca de seis meses. O vírus, porém, já havia causado uma cirrose hepática, que faz com que o órgão perca progressivamente sua função, caminhando para a falência completa se não houver tratamento.

Outro problema comum é que células hepáticas que sobrevivem à hepatite tendem a se multiplicar para compensar as que morreram, e essa grande proliferação pode levar ao crescimento desordenado, dando origem ao câncer de fígado. E foi o que aconteceu com Ferreira. “Veio a cirrose e, um ano e meio depois, o câncer. Estou bem, mas para ficar curado preciso de um transplante.”

Gordura no fígado

A esteatose hepática, ou gordura no fígado, também deve ser observada com atenção. Nos Estados Unidos, é a principal causa de transplantes. Por aqui, o problema está se tornando cada vez mais comum por conta dos hábitos alimentares inadequados e do sedentarismo.

O aumento da quantidade de gordura dentro dos hepatócitos – células encontradas no fígado – por tempo prolongado pode provocar uma inflamação capaz de evoluir para quadros graves de hepatite gordurosa, cirrose hepática e, por fim, câncer. Nesses casos, o fígado não só aumenta de tamanho, como adquire aspecto amarelado.

A estimativa é que 30% da população apresentem o problema e que metade dos portadores possam evoluir para formas mais graves da doença.

Prevenindo

A melhor forma de prevenir tumores malignos no fígado é evitar os fatores de risco, especialmente as infecções pelo vírus das hepatites B e C, o excesso de álcool, e adotar um estilo de vida mais saudável.

É possível prevenir a hepatite B com a vacinação, disponível no SUS. São necessárias três doses para garantir a proteção. Para a Hepatite C não existe vacina até o momento. A prevenção envolve não compartilhar objetos perfurocortantes de uso pessoal, como seringas e alicates de unha, usar material descartável para colocação de piercing e tatuagens e usar camisinha em todas as relações sexuais.