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Valéria Hartt

Publicado em 05/01/2015

Revisado em 08/03/2017

Câncer de tireoide: exames de imagem e o superdiagnóstico

Doctors examining X-ray images.O câncer de tireoide é hoje o tipo mais comum de tumor diagnosticado na Coreia do Sul. Artigo publicado no New England Journal of Medicine, uma das mais respeitadas publicações científicas, mostra que o excesso de exames de diagnóstico por imagem, como a ultrassonografia, explica a dimensão do problema e traz um alerta importante para médicos e pacientes.

A República da Coreia tem fornecido seguro nacional de saúde para seus 50 milhões de cidadãos desde os anos 1980, e em 1999 iniciou um programa de rastreio nacional para diversos tipos de câncer, incluindo mama, colo do útero, câncer gástrico, de cólon e hepático. O câncer de tireoide não estava incluído no programa do governo sul-coreano, mas diante do baixo custo dos exames, muitas clínicas e hospitais passaram a oferecer também o rastreamento periódico de tireoide entre os check ups de rotina. Isso significa a realização frequente de ultrassonografia, exames como a ressonância magnética ou o sofisticado PET-CT. Nesse cenário, máquinas de ultrassonografia são comuns nos serviços de saúde do país, com o respaldo de sociedades médicas e da própria mídia, que difunde constantemente os benefícios do diagnóstico precoce. [relacionados]

No entanto, a realidade da Coreia do Sul mostra que o cenário não é esse e é preciso ter cautela. Mais de 40 mil pessoas no país foram diagnosticadas com câncer de tireoide em 2011 — 100 vezes mais que o número de pessoas que morreram de câncer de tireoide na década anterior, quando eram registrados no país entre 300 e 400 casos da doença por ano.

Fica claro que médicos e pacientes precisam estar atentos e evitar o excesso de exames de imagem. Hoje, é preciso relativizar os benefícios da detecção precoce do câncer frente aos riscos reais de evolução da doença, além dos riscos associados ao próprio tratamento. É o que leva especialistas de todo o mundo a alertar contra os perigos do chamado superdiagnóstico (overdiagnosis) e do excesso de métodos de rastreamento que, a exemplo do registrado na Coreia do Sul, expõe à população a uma verdadeira epidemia de câncer de tireoide. Em 2011, o número de casos da doença no país foi 15 vezes maior que o registrado em 1993.

 Risco x benefício

Praticamente todas as pessoas diagnosticadas com câncer de tireoide recebem tratamentos: cerca de dois terços sofrem cirurgia para a remoção total da glândula e um terço para a retirada parcial. Mesmo que as linhas de conduta não recomendem cirurgia para tumores menores que 0,5 centímetro de diâmetro, um quarto dos pacientes sul-coreanos indicados para a cirurgia se encontravam nessa categoria.

Como resultado, essa população possivelmente vai demandar tratamento de suporte por toda a vida, sem falar das complicações associadas ao procedimento cirúrgico. Uma análise de 15 mil queixas formuladas por pacientes coreanos indicou que 11% tiveram hipoparatireoidismo e 2% paralisia das cordas vocais.

Os patologistas há tempos começaram a alertar para a discrepância entre os achados frequentes de câncer de tireoide na autopsia, em contraste com sua raridade como causa de morte. O primeiro alerta foi publicado em 1947, no New England Jornal of Medicine.

Agora, a expectativa é de que a experiência da Coreia do Sul sirva como advertência para o resto do mundo e interrompa o excesso de exames de imagem para o rastreamento do câncer de tireoide. Os dados disponíveis mostram aumento nas taxas de detecção do câncer de tireoide nos cinco continentes. Os números mais que dobraram na França, Itália, Croácia, República Checa, Israel, China, Austrália, Canadá e Estados Unidos. “Existe um claro excesso no uso de US da tireoide no Brasil também. Temos que alertar médicos e, principalmente, pacientes deste excesso não justificado e claramente prejudicial do US de tireoide de rotina, afirma o oncologista Antonio Carlos Buzaid, chefe geral do Centro Oncológico Antonio Ermírio de Moraes, em São Paulo.